24 de julho, 2019

Sergio Moro e os antagonistas do jornalismo sério e relevante, por Luiz Cláudio Cunha

Parte 1 - Observatório da Imprensa: O juiz de péssima memória tenta dar lições de jornalismo a quatro gigantes da história da imprensa. Por Luiz Claudio Cunha (foto) -  ARQUIVOS DA LAVA JATO - LIÇÕES DA IMPRENSA em 23/07/2019 na edição 1047

No espaço de treze dias, entre meados de junho e início de julho, o ministro da Justiça, Sergio Moro, rebateu acusações e degustou elogios durante mais de dezesseis horas em duas sessões sucessivas e tumultuadas perante senadores e deputados do Congresso Nacional. Esperto, adotou uma dupla linha de defesa que visava os dois lados opostos de inquisidores.

Aos que o endeusam, Moro blindou-se diante dos parlamentares, em palestras e em entrevistas posteriores como o defensor da histórica Lava Jato, a ação que investiga desde 2014 a maior denúncia de corrupção da história do país, o indesmentível assalto multipartidário aos cofres da Petrobras, a maior empresa brasileira.

Aos que o criticam, Moro tentou defender-se de maneira frágil contra as consistentes denúncias do site de notícias The Intercept Brasil, revelando conversas nada éticas mantidas entre o então juiz da 13ª Vara Federal de Curitiba e os procuradores da força-tarefa da Lava Jato. Desde 9 de junho, dez dias antes do depoimento de Moro ao Senado, o Intercept vem divulgando diálogos a cada dia mais constrangedores do juiz e de procuradores vazados do aplicativo russo Telegram – hoje baseado em Dubai, nos Emirados Árabes, e com 200 milhões de usuários (um deles, o papa Francisco).

Confrontado com o teor embaraçoso – para dizer o mínimo – de suas combinações privadas com os procuradores, Moro esquivou-se com uma tática dupla e contraditória: disse que não lembrava de nada e, ainda assim, garantia que nada daquilo aconteceu – se aconteceu, o material foi roubado por um hacker e criminosamente adulterado por jornalistas “sensacionalistas”. Agreste, o ministro se embrenhou em um terreno inóspito e desconhecido, tentando contrapor o que acha “mau” jornalismo do Intercept ao “bom” jornalismo do The New York Times e do The Washington Post em duas coberturas emblemáticas da imprensa: o caso Watergate e os “papéis do Pentágono”.

Na audiência com os senadores, Moro teve a pretensão de citar, erradamente, os dois casos mais notáveis do jornalismo americano, tentando ensinar ao repórter do Intercept como deveria agir. “Por que esse sensacionalismo, essa repercussão indevida? Que o Glenn Greenwald apresente o material às autoridades e ao Supremo Tribunal Federal para averiguar qualquer irregularidade. Vamos ver o que tem ali. Não esse sensacionalismo de divulgar, ao longo de um ano, todo dia um novo capítulo… Isso desmoraliza o veículo jornalístico”, reclamou Moro, propondo a entrega das conversas do Telegram à Polícia Federal (que ele, ministro da Justiça, comanda) ou ao STF (onde, em mensagem de abril de 2016, confessava privadamente sua confiança bilíngue no ministro Luiz Fux: “Excelente, In Fux we trust!”).

O pouco lembrado por Moro sobre Watergate, investigado pelo The Washington Post: “Se eles tinham a informação total desde o início, imagino que eles divulgavam desde o início. E não levavam um ano divulgando aquilo lá. O que eles fizeram: foram elaborando as matérias, segundo as informações que eles colhiam, e aí imediatamente divulgavam tudo”.

O pouco lembrado por Moro sobre os “papéis do Pentágono”, publicados pelo The New York Times: “[Os papéis] foram sendo divulgados à medida que eles tinham, eventualmente alguma coisa paulatina. Ninguém chegou lá e falou: ‘Ah, vamos levar um ano [para divulgar tudo], a conta-gotas, e sem apresentar a mais ninguém aquele material’. Inclusive, naquele caso, o material foi compartilhado com outros veículos de imprensa. Me parece um comportamento completamente diferente”.

A desastrada rota de fuga tentada sem sucesso pelo ministro mostra que, além da memória fraca e da falta de equilíbrio e isenção que cabe a um magistrado, Sergio Moro desconhece todos os fundamentos do bom jornalismo, que ganha relevância histórica sempre que atende à liberdade de expressão e ao direito do cidadão de saber a verdade sobre o poder e as autoridades que o pervertem. Por ignorância, mais do que por má-fé, talvez, Moro imagina que Glenn Greenwald é um mau jornalista em comparação a seus conterrâneos Neil Sheehan, Carl Bernstein e Bob Woodward.

Para combater a desinformação do ministro, vamos lembrar alguns detalhes importantes que sucessivamente levaram o Times de Sheehan (em 1971) e o Post de Bernstein e Woodward (em 1972-74) a escavar os bastidores secretos da Guerra do Vietnã e a denunciar o envolvimento da Casa Branca de Nixon na invasão do edifício Watergate. Para aumentar a irritação do ministro, vale recordar também o vazamento que revelou ao mundo (em 2013) o secreto sistema de vigilância eletrônica planetária da americana Agência de Segurança Nacional (NSA), denúncia publicada pelo jornal inglês The Guardian. Os arquivos da NSA foram, segundo o governo americano, roubados pelo ex-analista de sistemas da CIA Edward Snowden e repassados a um repórter americano que ele conhecia apenas pela internet e que morava no Rio de Janeiro: Glenn Greenwald – ele mesmo, o “mau” repórter que hoje atazana a vida de Moro com suas inconfidências ao celular.

Em momentos distintos da história americana, esse poderoso quarteto de repórteres – Sheehan, Bernstein, Woodward e Greenwald -, por méritos justificados e relevância jornalística, foi agraciado com o mais importante troféu da imprensa dos Estados Unidos: o Prêmio Pulitzer, conferido desde 1917 pela prestigiosa Universidade de Columbia, em Nova York. No Brasil, também sobrevoado pela espionagem da NSA, Greenwald ainda conquistou, com o jornal O Globo, em 2014, a versão local do Pulitzer, o Prêmio Esso de Reportagem. No mesmo ano, o documentário sobre seus encontros secretos com Snowden em Hong Kong, Citizenfour, dirigido por Laura Poitras, o levou ao palco principal de Hollywood para receber o Oscar de Melhor Documentário.

A opção antagonista pelo crime - É surpreendente que Sergio Moro, incapaz de observar a necessária compostura de juiz isento, ainda tenha a ousadia de definir um repórter com o pedigree de Greenwald como um profissional “sensacionalista”. Mas o que mais espanta, de fato, é o número no Brasil de sites, blogs e articulistas amestrados que, esquecidos dos fundamentos que o ministro não conhece nem respeita, sucumbiram como rústicos antagonistas dos princípios essenciais do bom jornalismo. Gastam o espaço de suas colunas e a lábia de seus vídeos repetindo com ar beatífico a cantilena de que o vasto material vazado do Telegram é a “invasão de um hacker sobre conversas privadas, produto de um roubo, material de autenticidade duvidosa, um crime cibernético, sujeito a manipulações etc.” Os antagonistas do bom e relevante jornalismo acusam – sem provas – o mensageiro de crime, ignorando a gravidade incontestável das mensagens, que apontam para o criminoso desequilíbrio da justiça e a parcialidade bandoleira de quem tinha o compromisso de preservar o direito e a lei.

O Intercept agora e, no passado, o Times, o Post e o Guardian, ao publicar suas denúncias de impacto, levaram em conta o interesse maior do cidadão e das sociedades constitucionalmente livres – o direito absoluto que, nas democracias, tem o povo de saber a verdade, toda a verdade, nada mais do que a verdade transparente sobre o que fazem seus governantes. A lei não existe para proteger o segredo de malfeitos, nem para proteger a privacidade de malfeitores investidos de autoridade.

O direito moral à verdade é maior do que as travas legais que protegem a mentira – como aconteceu antes com a cobertura jornalística de Watergate, os documentos do Pentágono, os arquivos de espionagem da NSA e como acontece agora com as conversas reveladas do Telegram.

Momentos épicos da imprensa: os antagonistas acham que são apenas crimes, produtos de roubo…

Vazar uma conversa amoral ou um papel secreto que autoridades e governos querem esconder de seus cidadãos é um direito, um dever e um benefício que presta a imprensa responsável, independente e livre, que nunca antagoniza a verdade e nunca abandona o bom jornalismo. No Brasil, os vazamentos constrangedores do Intercept excitaram tanto alguns parlamentares governistas e certos blogueiros bolsonaristas que, em coro, uns e outros chegaram a pedir a deportação e até a prisão do jornalista Glenn Greenwald pelo “crime” de cumprir exemplarmente sua missão de informar.

Esse exagero não houve nem em episódios mais extremos do jornalismo, como aconteceu nos Estados Unidos nos casos do Watergate e dos documentos do Pentágono. Lá, os repórteres diretamente envolvidos foram respeitados, protegidos, exaltados, premiados e, por força de seu trabalho de transcendência, provocaram decisões que melhoraram o país e mudaram a História.

Com a corajosa publicação dos “papéis do Pentágono”, em 1971, o Times foi levado pela Casa Branca de Richard Nixon às barras da Suprema Corte, que, em decisão histórica, rejeitou a censura do governo e assegurou os princípios de imunidade dos direitos fundamentais da Primeira Emenda da Constituição, reafirmando para sempre a liberdade de imprensa nos Estados Unidos.


O rival Post elogia o furo histórico do Times: para um antagonista, apenas um vazamento criminoso...

Com a persistente investigação sobre o assalto ao QG eleitoral do Partido Democrata no edifício de Watergate e seus graves desdobramentos, o Post acabou revelando a conexão entre os assaltantes e seu chefe maior, o republicano Nixon, que, em julho de 1974, foi obrigado pela Suprema Corte a divulgar as fitas secretas de gravações no Salão Oval. Em 9 de agosto, dezesseis dias após a decisão da justiça, e para evitar o impeachment iminente, Nixon tornou-se o primeiro presidente americano a renunciar.

Com a denúncia da espionagem eletrônica da NSA em amplitude planetária, realizada com o vazamento de arquivos secretos repassados por Edward Snowden a Glenn Greenwald, em 2013, o jornal The Guardian deu ao mundo a terrível consciência do Big Brother orwelliano que paira virtualmente sobre toda a humanidade. Especificamente sobre o Brasil, também espionado nos celulares da presidente Dilma Rousseff e na central telefônica da Petrobras, a ameaça foi detalhada pelo próprio Snowden em carta aberta ao povo brasileiro, publicada em meados de dezembro de 2013 pela Folha de S.Paulo. Diz ele:

Na NSA, testemunhei com preocupação crescente a vigilância de populações inteiras sem que houvesse qualquer suspeita de ato criminoso, e essa vigilância ameaça tornar-se o maior desafio aos direitos humanos de nossos tempos.

A NSA e outras agências de espionagem nos dizem que, pelo bem de nossa própria ‘segurança’ – em nome da ‘segurança’ de Dilma, em nome da ‘segurança’ da Petrobras -, revogaram nosso direito de privacidade e invadiram nossas vidas. E o fizeram sem pedir a permissão da população de qualquer país, nem mesmo do delas.

Hoje, se você carrega um celular em São Paulo, a NSA pode rastrear onde você se encontra, e o faz: ela faz isso 5 bilhões de vezes por dia com pessoas no mundo inteiro. Quando uma pessoa em Florianópolis visita um site na internet, a NSA mantém um registro de quando isso aconteceu e do que você fez naquele site. Se uma mãe em Porto Alegre telefona a seu filho para lhe desejar sorte no vestibular, a NSA pode guardar o registro da ligação por cinco anos ou mais tempo.

A agência chega a guardar registros de quem tem um caso extraconjugal ou visita sites de pornografia, para o caso de precisar sujar a reputação de seus alvos. Senadores dos EUA nos dizem que o Brasil não deveria se preocupar, porque isso não é ‘vigilância’, é ‘coleta de dados’. Dizem que isso é feito para manter as pessoas em segurança. Estão enganados.

Existe uma diferença enorme entre programas legais, espionagem legítima, atuação policial legítima – em que indivíduos são vigiados com base em suspeitas razoáveis, individualizadas – e esses programas de vigilância em massa para a formação de uma rede de informações, que colocam populações inteiras sob vigilância onipresente e salvam arquivos de tudo para sempre.

Esses programas nunca foram motivados pela luta contra o terrorismo: são motivados por espionagem econômica, controle social e manipulação diplomática. Pela busca de poder.”

Controlar o governo, não o contrário - Nada disso se saberia, muito menos no Brasil, se os arquivos secretos da NSA não tivessem sido roubados por Snowden, autor assumido do maior crime cibernético da história. O interesse público de milhões, até bilhões de pessoas no mundo, foi atendido pelo vazamento do The Guardian, contra os propósitos ocultos e criminosos de algumas dezenas de altos dirigentes dos serviços de espionagem, contrariados em seu paranoico secretismo. O valor maior e mais elevado da sociedade se sobrepôs aos privilégios ocultos e ilegais de uma fração da burocracia que cuidava apenas de perpetuar ações lesivas aos direitos fundamentais do cidadão. Isso é o que pensa todo jornalista honesto, consciente de seu papel de servir ao povo, não ao poder. Ou, como definiu o Times, ao ganhar na Suprema Corte o direito de publicar sua demolidora série de 49 páginas em nove edições diárias com os papeis secretos do Pentágono: “O fato é que, a partir da publicação desse material, os cidadãos americanos emergem como ganhadores. Eles ganharam em conhecimento do passado, o que deve servi-los bem no futuro. Eles ganharam na compreensão de seus direitos sob a Constituição. E eles ganharam no esforço perene do homem livre para controlar seu governo, e não o contrário.”

Um antagonista do bom e honesto jornalismo, submisso apenas ao seu perene esforço de bajular o poder e seu capitão de plantão, não hesitaria jamais: ficaria ao lado da NSA e de sua tropa de arapongas, todos indignados com a inconfidência do ex-funcionário que decidiu trocar o errado pelo certo, revelando a espionagem planetária que assedia a todos.

Embora se desconheça o tamanho exato do megavazamento de Snowden, as agências de inteligência estimam que foram acessados 15 mil arquivos na Austrália, 58 mil no Reino Unido e cerca de 1,7 milhão de registros sigilosos nos Estados Unidos, descobrindo acordos secretos de serviços de espionagem de vários países, além da dócil cumplicidade de gigantes da internet como Microsoft, Google, Facebook, Yahoo e Apple, que fazem parte de nosso dia a dia.

Em dezembro de 2013, Alan Rusbridger, o editor do The Guardian que coordenou o trabalho de Greenwald, deu a dimensão do estrago para a espionagem americana: ”Até agora, nós publicamos só 26 dos 58 mil documentos secretos que recebemos aqui”. Aquilo representava menos de 1% dos documentos vazados por Snowden e relativos à Grã-Bretanha.


C.P. Scott e Rusbridger, editores e guardiões da tradição: “o comentário é livre, mas os fatos são sagrados”.

Editor do Guardian por duas décadas, Rusbridger era o digno sucessor de uma figura lendária da imprensa britânica. Charles Prestwich Scott (1846-1932), ou apenas C.P. Scott, foi editor do jornal por 57 anos. Jornalista e membro do Partido Liberal, ele deu conteúdo a um jornal mais progressista e, por isso, com natural destaque na conservadora sociedade inglesa na transição do século XIX para o final da I Guerra Mundial (1914-1918). O jornal ganhou o respeito da esquerda ao apoiar os republicanos contra Franco na Guerra Civil Espanhola (1936-1939) e, hoje, tem a imagem de um diário de centro-esquerda.

No livro Homage to Catalonia, um relato sobre sua experiência de combatente antifascista na Espanha, o jornalista e escritor George Orwell (1903-1950) escreveu: “Dos nossos grandes jornais, o Guardian é o único que me dá um respeito crescente por sua honestidade”. Essa imagem era fruto da férrea liderança de Scott, que ensinava: “A primeira obrigação de um jornal é ser preciso ao dar as notícias. O comentário é livre, mas os fatos são sagrados. Até mesmo um editorial tem suas responsabilidades: é bom ser franco e é ainda melhor ser justo”.

Rusbridger decidiu ser franco e justo ao ser convocado pelo Comitê Especial de Assuntos Domésticos do Parlamento para falar sobre o vazamento dos arquivos da NSA. Ele mostrou-se “ligeiramente surpreso” ao ouvir a pergunta de azedo perfume bolsonarista formulada pelo presidente do comitê, Keith Vaz: “O senhor ama este país?”

O editor respondeu no fígado: “Nós somos patriotas e uma das coisas pelas quais somos patrióticos é a natureza da democracia, a natureza de uma imprensa livre, e o fato de que se pode, neste país, discutir e relatar essas coisas. Existem países – e não são geralmente democracias – onde a imprensa não está livre para escrever sobre isso e onde os serviços de segurança dizem aos jornalistas sobre o que escrever. Esse não é o país em que vivemos, na Grã-Bretanha, e essa é uma das coisas que amamos neste país”.

Apesar da amorosa declaração sobre a pátria, Rusbridger teve o cuidado de publicar o sensível material do NSA não pela sede londrina do jornal, mas pelo seu braço americano, o The Guardian US, a edição online com base em Nova York, o maior website jornalístico do mundo em língua inglesa depois do Times nova-iorquino. Em Londres, o jornal estaria sujeito às duras leis antiespionagem que restringem duramente a imprensa em solo britânico, impregnado de uma forte tradição repressiva nos casos que envolvem segredos de Estado. Já nos Estados Unidos, a edição do The Guardian vive sob o manto protetor da Primeira Emenda que, desde 1791, proíbe qualquer limite à liberdade de expressão e de imprensa.

A distinção máxima do Pulitzer - É oportuno registrar que Grã-Bretanha e Estados Unidos nutrem um ódio mortal por Snowden, que vazou o material para Greenwald. Snowden certamente seria preso e condenado, talvez à morte, se americanos e ingleses botassem a mão nele. O sentimento recalcado de vingança contaminava até os antagonistas da imprensa americana. Na liberal rede CNN, seu usualmente ponderado especialista em assuntos legais, Jeffrey Toobin, esbravejou: “Snowden é um notável narcisista, que merecia estar na cadeia”. Depois do encontro decisivo com Greenwald em Hong Kong, Snowden tratou de fugir para a Rússia, onde encontrou proteção e asilo permanente. Mas os benefícios globais da revelação para a privacidade dos cidadãos, no mundo inteiro, só ficaram evidentes pelo impacto regenerador do vazamento da NSA.

Em dezembro de 2013, seis meses após as primeiras denúncias do The Guardian, a imprensa publicou o relatório do Grupo Presidencial para Revisão em Inteligência e Tecnologia de Comunicações, uma equipe criada por Barack Obama logo após as denúncias com o objetivo de rever a intrusiva atividade de vigilância do governo. Embora integrado por membros diretamente ligados à Casa Branca e com abrangência limitada, o grupo concluiu que a vigilância da NSA “não é essencial para a prevenção de ataques terroristas”. Com o título de “Liberdade e segurança em um mundo em mudança”, o relatório constatou que as informações sobre terrorismo “poderiam ser facilmente obtidas em tempo hábil, usando meios convencionais”.

Para desencanto dos antagonistas de sempre, que acham que os segredos dos poderosos devem ser preservados a ferro e fogo, até o grupo de Obama entendeu, por meios transversos, que o vazamento da NSA prestou um relevante serviço público ao escancarar a obsessão de vigilância que contamina o governo americano. O The Washington Post publicou, em 12 de janeiro de 2014, um relatório acachapante contra a paranóia da espionagem. A New America Foundation, instituto especializado em políticas públicas, investigou 225 indivíduos recrutados pela Al-Qaeda ou ligados a grupos jihadistas desde o ataque de 11 de setembro às Torres Gêmeas e constatou que a contribuição da vigilância da NSA para identificar suas conexões foi mínima – apenas 1,8% dos casos. A coleta de dados telefônicos pela NSA, conclui o relatório, “não teve qualquer impacto discernível sobre a prevenção de atos de terrorismo”.

É relevante lembrar que o The Guardian, como nos casos anteriores do The New York Times e do The Washington Post, recebeu a distinção máxima das 21 categorias em que se divide o Pulitzer: o Prêmio de Serviço Público, o único que recebe uma medalha de ouro. Ou seja, é o máximo reconhecimento do valor jornalístico e do supremo interesse público embutidos até mesmo em reportagem nascida a partir da invasão de um hacker sobre arquivos secretos ou privados, produto de um roubo evidente, ou um crime cibernético – coisas que tanto horrorizam os antagonistas do bom jornalismo, que procuram antes agradar aos amigos do poder em vez de atender às conveniências maiores da sociedade, onde os valores morais prevalecem sobre os legais -, como atestam, aliás, o Pulitzer e a Universidade de Columbia há mais de um século. É exatamente o que faz o Intercept, agora, com as conversas indecorosas de Moro e sua força-tarefa vazadas pelo Telegram.

O frenesi com que os antagonistas tentam criminalizar o desempenho profissional de Greenwald e do Intercept torna-se um ridículo atroz quando se lembra que Moro agora condena, como pecado, o que era apenas virtude quando praticado por ele: o vazamento, julgado pelo conteúdo, não pela forma.

Diante de Bial, Moro escorrega: “problema não é vazar; é o conteúdo, é a burla à justiça”.

Moro escorrega no ponto - Em 9 de abril passado, no programa Conversa com Bial, na Rede Globo, quando viralizou sua folclórica dificuldade para lembrar qualquer coisa (“A última biografia que eu li? Puxa vida… eu tenho uma péssima memória!…”), Moro explicou porque não se arrepende de ter vazado a conversa da presidente Dilma Rousseff com seu antecessor, Lula, na véspera de sua fracassada nomeação para a Casa Civil. No minuto 35’38’’ da gravação, disponível no YouTube, Moro conta ao entrevistador Pedro Bial: “O problema ali não era a captação do diálogo e a divulgação do diálogo…. O problema era o diálogo em si, o conteúdo do diálogo. Ali era uma ação visando burlar a Justiça. Esse era o ponto.”

Data vênia, é um raciocínio perfeito, que Greenwald poderia devolver com as mesmas palavras na testa de Moro, o feiticeiro que agora reclama do mesmo feitiço: “O problema ali no Telegram não era a captação do diálogo e a divulgação do diálogo, ministro… O problema era o diálogo em si, o conteúdo do diálogo. Ali era uma ação [do juiz com os procuradores] visando burlar a Justiça. Esse era o ponto, ministro.” Contagiados pela mesma amnésia, sempre cômoda e providencial, que socorre Moro nos momentos de apuro, os antagonistas do bom jornalismo também esqueceram completamente desse juízo inspirador do juiz sem memória.

O pelotão de fuzilamento dos que estão com o dedo no gatilho para executar Greenwald e o Intercept tem arrepios quando escuta a palavra “vazamento”. Mas, ingrato, ele não lembra que existe o vazamento oportuno e favorável, aquele que Moro e sua força de tarefas pouco éticas aceitam, praticam e estimulam. Em fornada mais recente do Telegram, referente a agosto de 2017, Moro e os procuradores do MP discutem privadamente o agravamento político da Venezuela de Maduro com autoridade e pretensão que não existem nem no Conselho de Segurança da ONU. É o momento em que estão sendo vasculhadas as contas da Odebrecht na Suíça para pagar suborno a autoridades em Caracas. Moro, em 5 de agosto, sugere a Dallagnol: “Talvez seja o caso de tornar pública a delação da Odebrecht sobre propinas na Venezuela…”

Moro, com certeza, não deve lembrar dessa grave insinuação. Mas até o antagonista mais cabeçudo deve concordar que uma tradução perfeita para “tornar pública” é “vazar”. Ou seja, vazamento na terra dos outros é refresco – vale pelo conteúdo, não importa a captação, nem sua divulgação…. Com dose de cinismo compatível com a situação, Dallagnol lembrou que uma cláusula de sigilo com o STF impedia qualquer publicidade, mas sempre existia a fórmula salvadora do vazamento – saborosa quando é favorável, ardida quando é revelada pela inconfidência do Telegram. Dallagnol, com o recato de evitar a palavra maldita, respondeu a Moro: “Não dá para tornar público simplesmente porque violaria acordo [com o STF], mas dá para enviar informação espontânea [para a Venezuela] e isso torna provável que em algum lugar no caminho alguém possa tornar público”.

Não é preciso ser um exegeta do Direito para entender que a dissimulada “informação espontânea” ou a oblíqua observação de que “alguém, em algum lugar, no meio do caminho” possa “tornar público” os termos da delação nada mais são do que uma camuflagem para o bom e velho vazamento. Só um antagonista do bom senso poderia pensar o contrário. Os procuradores têm plena consciência dos riscos que assumem com a premeditação do crime. O procurador Paulo Galvão, o PG, adverte no Telegram: “Vejam que uma guerra civil lá é possível e qq [qualquer] ação nossa pode levar a mais convulsão social e mais morte”. Senhor da força-tarefa, da vida e da morte, Dallagnol responde, com a sabedoria dos deuses: “PG, quanto ao risco, é algo que cabe aos cidadãos venezuelanos ponderarem. Eles têm o direito de se insurgir”.

O juiz parcial está nu - Quando se soube que a ex-procuradora-geral da Venezuela, Luísa Ortega Díaz, destituída e exilada na Colômbia, veio ao Brasil para falar com Rodrigo Janot, o procurador Paulo Galvão aproveitou para fazer a provocação precisa: “Vcs que queriam leakar as coisas da Venezuela, tá aí o momento. A mulher está no Brasil”.

Moro e sua turma aprovam, na Venezuela, o que desaprovam no Brasil do Intercept: vazar

Como sabem até os monolíngues, leakar é a gíria baseada no verbo leak, que em português significa “vazar”. Dito e feito. Em 12 de outubro, semanas após a visita secreta de dois procuradores venezuelanos a Curitiba, Ortega publicou em seu site na internet dois vídeos com trechos de depoimentos do ex-diretor da Odebrecht na Venezuela, Euzenando Azevedo, falando sobre propinas para a campanha eleitoral de Nicolás Maduro.

A sequência de diálogos de Moro com sua força de tarefas impublicáveis, agora transcrita pelo Intercept, desnuda um juiz de inegável, condenável mau comportamento perante o Código de Ética da Magistratura e de clara afronta à Constituição, que exigem imparcialidade e isenção do magistrado entre acusação e defesa. Os diálogos com os procuradores da Lava Jato mostram Moro tomando claramente partido na investigação, orientando o Ministério Público sobre estratégias de abordagem, sugerindo inversão da data de operações futuras, discutindo detalhes de ações ainda não realizadas, apontando testemunha e concordando com a ideia de falsa denúncia para forçar o depoimento de uma testemunha potencial, como na mensagem de 7 de dezembro de 2015. “Aparentemente a pessoa estaria disposta a prestar a informação. Estou então repassando. A fonte é séria”, escreveu Moro. “Estou pensando em fazer uma intimação oficial até, com base em notícia apócrifa”, antecipou Dallagnol. Indiferente à ilegalidade, Moro endossou a violência: “Melhor formalizar então”, respondeu o juiz, segundo o Intercept.

A secreta promiscuidade entre o juiz e os procuradores, agora revelada nas conversas que se imaginavam privadas do Telegram, mostra Sergio Moro fora de prumo, atuando claramente a favor da acusação, desequilibrando a balança da Justiça, pelo qual ele era constitucionalmente responsável. Na noite de 10 de maio de 2017, às 22h12, horas após o depoimento de Lula na Lava Jato, Moro não teve escrúpulos em orientar a acusação, não como juiz, mas como um reles torcedor de arquibancada: “Talvez vcs devessem amanhã editar uma nota esclarecendo as contradições do depoimento com o resto das provas ou com o depoimento anterior dele”, completando um minuto depois: “Por que a Defesa já fez o showzinho dela”.

Entre si, os procuradores exorbitavam de suas atribuições, lamentando a decisão do STF, em 28 de setembro de 2018, de liberar uma entrevista de Lula, na cadeia, à repórter Mônica Bergamo, da Folha de S.Paulo. A procuradora Laura Tessler se mostra indignada no Telegram: “Que piada!!! Revoltante!!!”, escreve, com a ênfase de três pontos de exclamação, conforme o Intercept. “Lá vai o cara fazer palanque na cadeia. Um verdadeiro circo… e a gente aqui fica só fazendo papel de palhaço com um Supremo desse…”. Outra procuradora, Isabel Groba, ecoa o insulto ao STF com outra ofensa, escoltada por exatas 21 exclamações, conforme a transcrição: “Mafiosos!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!”.

Uma hora mais tarde, a procuradora Tessler voltou ao aplicativo para confessar a verdadeira preocupação do grupo do MP: a eleição presidencial em primeiro turno, que aconteceria uma semana depois, em 7 de outubro. Uma entrevista do preso Lula, presumia a procuradora, poderia turbinar a eleição do candidato do PT, Fernando Haddad. “Sei lá… Mas uma coletiva antes do segundo turno pode eleger o Haddad”, temia Tessler na sua inconfidência pelo Telegram. Em outra conversa com o coordenador da Lava Jato, Deltan Dallagnol, uma procuradora de nome Carol diz, às 11h22 daquele dia: “Ando muito preocupada com uma possível volta do PT, mas tenho rezado muito…”. Dez minutos depois, Dallagnol concorda: “Valeu, Carol! Reza sim, precisamos como país”.

Alarmado com a possibilidade, o grupo de Dallagnol e outros doze procuradores começou a pensar em fórmulas para atrapalhar a entrevista, na impossibilidade de impedi-la. A alternativa era esculhambar o encontro exclusivo com a repórter da Folha de S.Paulo, transformando-o em uma imensa entrevista coletiva, que provavelmente atrairia repórteres do país e do mundo. “Abrir para todos fazerem a entrevista no mesmo dia. Vai ser uma zona, mas diminui a chance de a entrevista ser direcionada”, imaginou o procurador Januário Paludo. “Tentar ampliar para outros, para o ‘circo’ ser menor armado e preparado, com a chance de, com a possível confusão, não acontecer”, escreveu o procurador Júlio Noronha.

A aflição da Lava Jato só acabou às 22h49 daquele mesmo dia, quando o ministro Luiz Fux, do STF, atendeu ao Partido Novo e cancelou a entrevista, alegando sem qualquer constrangimento “a necessária relativização excepcional da liberdade de imprensa”. Essa afinidade com Fux foi demonstrada em uma conversa de abril de 2016, quatro meses após a abertura na Câmara dos Deputados do processo de impeachment de Dilma Rousseff, consumado no Senado Federal em agosto daquele ano. Dallagnol informa aos procuradores sobre uma conversa reservada que teve com o ministro do STF: “Disse para contarmos com ele para o que precisarmos, mais uma vez. Só faltou, como bom carioca, chamar-me pra ir à casa dele rs. Mas os sinais foram ótimos. Falei da importância de nos protegermos como instituições. Em especial no novo governo”. Ao repassar a mensagem ao juiz, ele recebeu a já citada resposta de Moro: “Excelente. In Fux we trust”.

Imprensa séria quebra o isolamento - A aberração desse comportamento desnivelado de Sergio Moro, que deveria ser equilibrado e factualmente imparcial, fica clara na evidência de que não existe no Telegram nenhuma conversa do juiz com os advogados da defesa de Lula. Ou seja, nesse caso específico, Moro tinha claramente um lado, uma preferência, um parceiro oculto, uma confraria secreta: o Ministério Público, que ele orientava por baixo dos autos, no escurinho do aplicativo aparentemente sigiloso, para contrapor e incitar o “showzinho” da acusação.

Não cabe a procuradores diligentes a missão pervertida de atrapalhar a imprensa, sabotando uma entrevista exclusiva para torná-la uma coletiva – não pelo louvável objetivo da mais ampla informação, mas pela intenção rasteira de convertê-la em uma “zona, uma confusão, um circo”, só para embaraçar o livre discernimento do eleitor sobre um ou outro candidato presidencial. Não cabe a um juiz sério aprovar tudo isso, ou chancelar uma prova falsa para forçar um testemunho, ou instruir a comunicação do MP à opinião pública, ou restringir a investigação para não melindrar o ex-presidente FHC, “cujo apoio é importante”, como explica Moro a Dallagnol.

Quando apareceram as primeiras conversas do Telegram, no início de junho passado, os bolsonaristas infiltrados em blogs, sites e redes sociais saíram em precipitada defesa de Sergio Moro, resumindo tudo aquilo como um solitário ataque de Glenn Greenwald, que diziam ser “um suposto jornalista” com o obscuro objetivo de enterrar a Lava Jato e tirar Lula da cadeia. Nada além disso… Mas, para desconsolo dos inconformados com o jornalismo independente, o consistente vazamento do Telegram de repente deixou de ser uma empreitada isolada e obsessiva do Intercept e ganhou a adesão crescente de outros jornalistas e veículos de prestígio, que não costumam antagonizar a notícia.

Reinaldo Azevedo: duro crítico da ignorância do criador, Olavo, e da criatura, Bolsonaro

O primeiro foi o jornalista Reinaldo Azevedo, odiado pelos petistas e admiradores de Lula como autor de um livro de sucesso, O país dos petralhas, em dois volumes. Trotskista na juventude e hoje um declarado “conservador liberal de centro-direita”, Azevedo foi redator-chefe das revistas Primeira Leitura e Bravo!, editor de política da Folha de S.Paulo e, agora, mantém um blog de sucesso no portal UOL. Aos 57 anos, ele apresenta nos finais de tarde da rádio BandNews FM o programa O é da coisa¸ hoje um dos espaços mais criativos, críticos e inteligentes da imprensa brasileira, um antagonista declarado da ignorância da milícia bolsonarista, entorpecida entre o criador e sua criatura: o desbocado guru Olavo de Carvalho e seu grosseiro seguidor Jair Bolsonaro.

Além do bom humor e das refinadas ilustrações literárias, seus comentários mostram um largo conhecimento jurídico e o fio agudo do rigor linguístico para esquartejar a indigência vocabular do tosco capitão-presidente e seus louvaminheiros. Azevedo foi o primeiro jornalista, fora do Intercept, escolhido por Greenwald para compartilhar os arquivos do Telegram. Logo se juntou a eles a Folha de S.Paulo, que desmontou a falácia dos bolsonaristas atestando a integridade dos registros vazados. Dois repórteres do jornal, Ricardo Balthazar e Flávio Ferreira, investigaram as datas e o conteúdo das mensagens que eles mesmos trocaram com os procuradores e atestaram que nunca houve nenhuma manipulação.

Em 23 de junho, duas semanas após o primeiro vazamento do Telegram, o Intercept anunciou sua primeira parceria institucional de peso, com o jornal Folha de S.Paulo, mostrando com mais detalhes a promiscuidade entre Moro e os procuradores da Lava Jato, articulados para reduzir as tensões entre o juiz de Curitiba e os ministros do Supremo em Brasília. A Folha fez antes o seu dever de casa, para confessar depois sua confiança no material publicado pelo Intercept:

Nos últimos dias, repórteres do jornal e do site trabalharam lado a lado, pesquisando as mensagens e analisando seu conteúdo. Como o material é muito vasto, os jornalistas têm dedicado bastante tempo para analisar os diálogos, examinar o contexto das discussões nos vários grupos de mensagens e checar as informações encontradas para verificar a consistência do material obtido pelo Intercept.

O pacote obtido pelo Intercept reúne mensagens privadas trocadas pelos procuradores em vários grupos no aplicativo Telegram desde 2014, incluindo diálogos com o ministro Moro, que foi o juiz responsável pelos processos da Lava Jato em Curitiba até 2018. Além das mensagens, o acervo inclui áudios, vídeos, fotos e documentos compartilhados no aplicativo.
Ao examinar o material, a reportagem da Folha não detectou nenhum indício de que ele possa ter sido adulterado
.

Os repórteres, por exemplo, buscaram nomes de jornalistas da Folha e encontraram diversas mensagens que de fato esses profissionais trocaram com integrantes da força-tarefa nos últimos anos, obtendo assim um forte indício da integridade do material.

Após as primeiras reportagens sobre as mensagens, publicadas pelo Intercept, no dia 9, Moro e os procuradores reagiram defendendo sua atuação na Lava Jato, mas sem contestar a autenticidade dos diálogos revelados. Depois de alguns dias, passaram a colocar em dúvida a integridade do material, além de criticar o vazamento das mensagens. Até agora, porém, Moro e os procuradores não apresentaram nenhum indício de que as conversas reproduzidas sejam falsas ou tenham sido modificadas.”

Logo depois, para desencanto dos mais fanáticos antagonistas do bom jornalismo, juntou-se ao grupo a conservadora revista Veja, que formou uma força-tarefa de cinco repórteres para trabalhar com outros três do Intercept e, durante duas semanas, comparar os diálogos do Telegram com os processos judiciais e entrevistas relacionados a eles. Checaram exatas 649.551 mensagens do aplicativo e, ao final, o exemplar editorial de Veja chegou a uma conclusão deprimente para aqueles que desprezam o jornalismo sério:

Pela leitura do material, fica evidente que as ordens do então juiz eram cumpridas à risca pelo Ministério Público e que ele se comportava como parte da equipe de investigação, uma espécie de técnico do time – não como um magistrado imparcial.

Alguns dos exemplos de irregularidades: Moro apontava abertamente aos procuradores as delações de sua preferência, alertava sobre a falta de provas nas denúncias e chegava a receber material dos procuradores para embasar suas decisões. Veja sempre foi – e continua – a favor da Lava Jato. A luta contra a corrupção tem sido um dos pilares da nossa história. Mas os diálogos que publicamos nesta edição violam o devido processo legal, pedra fundamental do estado de direito – que, por sinal, é mais frágil do que se presume, ainda mais na nossa jovem democracia.

Jamais seremos condescendentes quando as fronteiras legais forem rompidas (mesmo no combate ao crime). Caso contrário, também seríamos a favor de esquadrões da morte e justiceiros. Há quem aplauda e defenda esse tipo de comportamento, reação até compreensível no cidadão comum, cansado de tantos desvios éticos. Mas como veículo de mídia responsável não podemos apoiar posturas como essa.

Um dia, o justiceiro bate à porta e, sem direito a uma defesa justa, a pessoa é sumariamente condenada. Na Lava Jato ou nas operações que virão no futuro, é fundamental que a batalha contra a corrupção seja feita de acordo com o que diz o regime constitucional. Essa é a defesa de todos os brasileiros contra os exageros do Estado.”

Com a elegância de não citar os antagônicos que abertamente “aplaudem e defendem” aquelas violações, a revista abandonou a pétrea defesa de Sergio Moro escancarada em dezenas de capas ao longo de uma década e, no espaço de três semanas, produziu duas edições demolidoras para a imagem consagrada de quem ela mesma chamava de “grande herói da Lava Jato”.

Caindo a ficha: após capas de louvor, Veja vê o desmoronar do juiz parcial no espaço de 20 dias

Sergio Moro e os antagonistas do jornalismo sério e relevante - continua, parte 2 aqui!

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