06 de fevereiro, 2018
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O texto de Gilberto Maringoni que a Folha se negou a publicar, por Pragmatismo Político

Folha de S.Paulo se nega a publicar texto de Gilberto Maringoni que serviria de réplica a um artigo de Armínio Fraga e Robert Muggah. Justificativa do editor do jornal para rejeitar o conteúdo foi registrada em diálogo

PRAGMATISMO POLÍTICO - MÍDIA DESONESTA - 06/FEB/2018 ÀS 20:04 - por Gilberto Maringoni via Facebook - arte capa:  Maringoni

Neste domingo (4), o caderno Ilustríssima, da Folha de S. Paulo, publicou extenso artigo de Armínio Fraga e Robert Muggah, fazendo um diagnóstico da política externa brasileira e traçando rumos para o futuro. Postei ontem mesmo o texto aqui no Facebook.

Achei o texto superficial e muito ruim.

Escrevi ao editor do caderno, cujo nome omito, para saber da possibilidade de publicarem uma réplica, que eu pretendia escrever.

Eu sei ser impossível a um editor se comprometer a publicar algo ainda não escrito. Daí minha cautelosa questão.

Para minha surpresa, ele negou, de cara, a possibilidade.

Eis nossa troca de mensagens:

MINHA MENSAGEM AO EDITOR

Prezado [Editor do caderno Ilustríssima],

Como vai?
Li, neste domingo, o artigo “Reformas para o Brasil ganhar espaço no tabuleiro mundial”, assinado por Armínio Fraga e Robert Muggah.

Não se trata apenas de discordância com o texto, mas me espanta que peça tão superficial e repleta de meias-verdades seja publicada em tão largo espaço.

Gostaria de saber se há possibilidade de a Ilustríssima publicar o contraditório que pretendo escrever.

Atenciosamente,
Gilberto Maringoni

A RESPOSTA DO EDITOR

Caro professor,
Não tenho como dar uma resposta a partir de seu email abaixo. É uma sugestão muito genérica. A princípio, no entanto, posso dizer que não vejo muito calor nesse debate.

Grato,
[Editor do caderno Ilustríssima]

MINHA TRÉPLICA

Caro [Editor do caderno Ilustríssima]
Espanta-me ver que o editor de um caderno de ideias atue para interditar as mesmas. Mais espantoso é que este editor não “vê calor” no tema central da inserção do Brasil na divisão internacional do trabalho pós-2008, em meio à crise por nós enfrentada.

Paciência. Quero apenas enumerar algumas das muitas insuficiências das linhas cometidas por Armínio Fraga e Roberto MuggaH, no artigo “Reformas para o Brasil ganhar espaço no tabuleiro mundial”:

1. Dizem os autores: “A ordem liberal internacional está sob ataque. O compromisso assumido sete décadas atrás pelos países ocidentais quanto a segurança comum, mercados abertos e democratização está perdendo a força”.

Armínio e Muggah parecem não conhecer a história das últimas sete décadas. O compromisso do pós-Guerra não foi liberal, mas um pacto de compromisso entre liberais e desenvolvimentistas para a superação do liberalismo materializado por um século de supremacia britânica. Este desembocou em duas guerras mundiais e uma crise no centro do sistema. Temos aqui quase um consenso na historiografia das relações internacionais. E não se trata de um período unívoco. Nele tiveram lugar diversas fases da Guerra Fria, o unilateralismo estadunidense, a ascensão da China e a tendência à multipolaridade;

2.O populismo reacionário e a crescente desigualdade de oportunidades e de renda nas economias mais avançadas também têm sua parcela de culpa.

Armínio e seu colega jogam conceitos na base do “se colar, colou”. O que é “populismo reacionário”? Reacionário em relação a qual ação? Por que existem “crescentes desigualdades de renda” em tais economias?

3.A despeito de terem se beneficiado da ordem liberal internacional, muitos países latino-americanos, especialmente o Brasil, reagem de forma ambígua diante do fim desse quadro e até parecem aliviados. Isso é um erro”.

Se Armínio e Muggah acompanhassem os debates sobre os rumos da economia brasileira a partir do célebre debate entre desenvolvimentistas e liberais – em especial entre Roberto Simonsen e Eugênio Gudin, em 1944-45 – não escreveria o que escreve. Tenho vontade de enviar a ele meu livro sobre o tema, publicado pelo IPEA, em 2010. Fizessem isso, veriam que a adesão brasileira à ordem global, hegemonizada pelos EUA, nunca foi um caminho suave.

4. Para compreender o agnosticismo latino-americano, é preciso recuar ao nascimento da ordem liberal internacional, em 1945. (…) Sua face institucional inclui a Organização das Nações Unidas, o Banco Mundial, o Fundo Monetário Internacional…

A criação da ONU ensejou uma dificílima articulação que levou em conta a hierarquia entre países e a força relativa de cada um. Após 1949, a Organização foi pesadamente criticada pelo establishment norteamericano. Para Armínio e Muggah, não existe disputa política, ordem é coisa que cai do ceu e História significa um desfiar contínuo de fatos, coisas e datas.

5.Essas entidades, algumas das quais excluíam os países latino-americanos, tinham por compromisso a difusão do Estado de Direito, a democratização, a preservação de mercados abertos…

Uma pergunta: colocamos a deposição de Jacobo Árbenz (1954), na Guatemala, o golpe no Brasil (1964) e no Chile (1973), entre vários outros, na conta da “difusão do Estado de Direito” e da “democratização”?

6. A ordem liberal internacional endossou a ideia de um jogo de soma positiva, e não o de soma zero (no qual um perde o que o outro ganha) que prevaleceu por séculos”.

Ótimo. Só falta explicar como se deu isso. Armínio e Muggah deveriam buscar conhecer a história de um organismo chamado Cepal.

7.A partir dos anos 80, o comprometimento latino-americano perdeu ainda mais força, apesar do colapso da União Soviética (1989). A maioria dos países da região encarava com desconfiança as terapias de choque (muitas vezes mal implementadas) impostas pelo Consenso de Washington”.

“Encarava com desconfiança”? Tucanaram a década perdida? Países como México, Brasil e Argentina quebraram ao longo da crise da dívida. Armínio e Muggah fazem tábula rasa dos efeitos da crise norteamericana e da adoção do dólar flexível, a partir de 1972-73. Essas medidas possibilitaram a externalização da crise dos EUA e sua recuperação ao longo dos anos 1980, algo verificável através da consulta de qualquer gráfico da evolução de seu PIB. My God!

8. A partir da presidência de Luiz Inácio Lula da Silva (2003-2010), contudo, o Itamaraty e sua estratégia tradicional foram deixados de lado”.

Armínio e Muggah precisam estudar mais um pouquinho. Certamente desconhecem a linha crescentemente nacionalista do Itamaraty a partir da política externa para o desenvolvimento, de Vargas, passando pela Política Externa Independente de Janio e Jango, pelo Pragmatismo Responsável de Geisel, até chegar à Política Externa Altiva e Ativa, de Lula. Fizessem isso, perceberiam que a estratégia dominante do MRE tende mais para essas diretrizes e que as políticas externas de Castello Branco, Collor de Mello, FHC e Temer é que deixam de lado uma tradição em curso.

9. Enquanto o Brasil advogava maior cooperação entre as nações em desenvolvimento, a expansão acelerada dos negócios privados e públicos brasileiros em regimes antiliberais causou preocupações quanto ao compromisso do país com a ordem liberal internacional”.

Armínio e Muggah chegaram agora de Marte? Nosso comércio internacional com a América Latina, Ásia e África se multiplicou por cinco, na média, e contou com entusiasmado apoio empresarial nesses anos. Até mesmo com um dos países do “eixo do mal”, o Irã, essa adesão foi forte. Veja-se notícia da Agência Brasil, de 11 de abril de 2010: “Daqui a um mês, no dia 15 de maio, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva vai a Teerã, no Irã. Antes, chegará ao país o ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, Miguel Jorge, que comanda um grupo com 86 empresários brasileiros”.

Há muito mais na diatribe do banqueiro e do ongueiro. Praticamente cada parágrafo embute uma meia verdade ou uma ignorância interessada. Não quero aborrecer a você, caro [Editor do caderno Ilustríssima], com um debate que não provoca “calor”.

Falar nisso, vejo também que a queda acentuada da circulação dos jornais se dá pelo fato do público sentir cada vez menos “calor” no que lê. A voz monocórdia de banqueiros pode render alguma receita publicitária, mas cada vez menos a simpatia do leitor.

Saudações,

Gilberto Maringoni
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Gilberto Maringoni de Oliveira (São Paulo, 23/ago/1958)[ é um jornalista, cartunista e professor universitário brasileiro. É professor de Relações Internacionais da Universidade Federal do ABC, tendo lecionado também na Faculdade Cásper Líbero e na Universidade Federal de São Paulo.

É doutor em História Social pela FFLCH-USP. É autor de doze livros, entre eles "A Venezuela que se inventa – poder, petróleo e intriga nos tempos de Chávez" (Editora Fundação Perseu Abramo, 2004), "Roberto Simonsen -Eugênio Gudin – Desenvolvimento, o debate pioneiro de 1944-1945’ (IPEA, 2010) e "Angelo Agostini - a imprensa ilustrada da Corte à Capital Federal, 1864-1910" (Devir Livraria, 2011), baseado em uma tese de doutorado[2] e que foi premiado com um Troféu HQ Mix em 2012.[3] Foi editor da revista Desafios do Desenvolvimento, do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada, entre 2011 e 2012 e pesquisador do Instituto entre 2008 e 2011.

Foi chargista do jornal O Estado de S. Paulo de 1989 a 1996. Publicou histórias em quadrinhos no Brasil, França, Espanha, Portugal e Itália.

É ativista político desde 1977. Atuou no movimento estudantil, no final dos anos 1970, tempos finais da ditadura. Foi dirigente do PT, no qual militou entre 1988 e 2005, desligando-se do partido por divergências com seus rumos. Desde então é filiado ao PSOL, chegando a ser membro de sua direção nacional.

Gilberto Maringoni foi candidato a governador do Estado de São Paulo nas eleições de 2014 pelo PSOL.
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