04 de agosto, 2018
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Nocaute via Conversa Afiada: Zé Dirceu relembra 1968, o ano que incendiou o mundo

Olá, meus amigos e minhas amigas do Nocaute. Hoje eu quero prestar homenagem à geração de 68 que lutou contra a ditadura militar, Zé Dirceu
 
Como não tem voto, querem impedir o povo de decidir (Conversa Afiada 15/fev/2018)

Dirceu aos estudantes: vamos à luta! A Geração de 68 e a de 2018 impedirão o Golpe dos ricos: a supressão da eleição
 
Os militares tomaram o poder, rasgaram a Constituição. Demitiram sete mil oficiais das Forças Armadas. Eram homens democratas, nacionalistas, progressistas. Expulsaram do serviço público dezenas de milhares de brasileiros e brasileiras. Fecharam catorze mil sindicatos, ligas camponesas, sindicatos urbanos e rurais. Reprimiram toda a oposição a ferro e a fogo. Inclusive, a oposição chamada liberal, burguesa, os políticos tradicionais, como o Jânio, como o Lacerda, Magalhães Pinto. 
 
Impuseram a censura. Liquidaram com os partidos políticos. Puseram fim à eleição direta para presidente, governadores e prefeitos das capitais e as chamadas áreas de segurança nacional. 
 
Era a ditadura, crua. Os estudantes se levantaram contra a ditadura. Em 65, ao chegar à Faculdade, eu encontrei o Centro Acadêmico fechado, até a Associação Atlética estava fechada. Era proibido fazer cineclube, teatro, feiras de livro. 
 
Era um silêncio. Era a ditadura. Não havia liberdade. Nós estudantes nos levantamos contra a ditadura. Defendemos o direito de existir dos Centros Acadêmicos, da nossa organização civil, livre, democrática, eleita pelos estudantes, sustentada pela venda de carteirinhas de estudantes. 
 
E fomos às ruas. Não aceitamos a proibição que a ditadura impôs à manifestação. Pelo contrário, defendemos a livre manifestação, a livre organização e o direito de protestar. 
 
Enfrentamos a ditadura. Recebemos apoio de intelectuais, artistas, jornalistas, servidores públicos, de amplos setores da sociedade. Inclusive dos sindicatos que começavam a se reorganizar.
 
Foram anos de intensa luta e de grandes mudanças no Brasil. A geração de 68 fez uma verdadeira revolução social, de comportamento, costumes, cultural. Foi a música popular brasileira, o cinema novo, o teatro de vanguarda, era a nova literatura, uma nova forma de se expressar, era o direito à igualdade às mulheres. 
 
Igualdade conosco, nas lutas, nas lideranças. O direito delas de decidirem o seu destino. O destino do seu corpo, o destino do seu futuro. 
 
Era a geração de 68 no Brasil e no mundo lutando contra o autoritarismo. Mas havia a luta contra a ditadura, contra a privatização do ensino, contra a elitização do ensino. 
 
Infelizmente, hoje, 80% dos estudantes universitários pagam para estudar. Caso único no mundo. E agora querem avançar sobre o ensino médio, sobre o chamado segundo grau. Privatizar, privatizar, é a palavra de ordem. 
 
A geração de 68 se uniu aos operários quando ocuparam as fábricas em Osasco e Contagem. Os militares não podiam tolerar. Impuseram ao país o Ato Institucional 5, até porque reprimiu a toda e qualquer oposição, inclusive censurando a imprensa. E quando brasileiros e brasileiras se levantaram em armas contra o regime, ele deu um basta e fechou totalmente o sistema político do país. 
 
Foi a época do silêncio, do medo. Mas por pouco tempo. Em 1973 voltavam as greves. Em 1974 a ditadura foi derrotada nas urnas. Em 1976, 1977 os estudantes voltaram a ocupar as ruas do país e a UNE foi reconstruída em 1979. 
 
Em 1977, as greves no ABC, pela primeira vez, ouviram uma voz rouca gritar contra a ditadura. Era Lula que surgia.
 
Porque o povo se levantou apesar da repressão? Porque o modelo econômico da ditadura trouxe a carestia, a favelização. Porque houve uma corrida para as grandes cidades em busca de empregos e não havia investimento em saneamento, habitação, transporte, creches, em saúde. 
 
E o povo começou a lutar nos bairros e periferias contra a carestia. Por creches, por melhores transportes, pelo saneamento, pelo direito à habitação. E nas fábricas, os trabalhadores, frente ao arrocho salarial e a manipulação da inflação cometida pela ditadura, se levantaram também em greves, em ocupações, em lutas. 
 
Em 1978, a ditadura já perderia a eleição. Mas o que fazia a ditadura? Ia mudando o sistema eleitoral. Criou o senador biônico. Criou restrições a propaganda eleitoral. Criou inelegibilidades, criou domicílio eleitoral. Fez tudo para afastar o povo das urnas. De nada adiantou. Cresceu a luta pela Anistia, cresceu a luta contra a ditadura. E nós conquistamos a democracia e a Constituição de 1988.
 
A geração de 68 deixou a sua marca, deixou o seu exemplo. Muitos, inclusive, deram a vida pela liberdade e pela democracia. 
 
Hoje, vivemos novamente um golpe e o crescimento do autoritarismo, a volta do preconceito, da censura, a volta da intolerância. O uso da violência na disputa política e principalmente o golpe parlamentar judicial que derrubou uma presidente legítima, eleita por 54 milhões de brasileiros. 
 
Mas a política econômica que estão adotando no Brasil também está sendo repudiado pelo povo. Como eles não têm voto, como a ditadura não tinha, querem banir Lula das urnas. E querem falsear o sistema político eleitoral, tirando o povo da decisão com o semiparlamentarismo.
 
E agora autorizam que os candidatos ricos possam financiar suas campanhas. É o dinheiro comandando as eleições. Tudo isso para impedir que a esquerda, os democratas, os nacionalistas, vençam as eleições, que Lula possa ser candidato. 
 
Essa luta vai continuar. Ela foi vitoriosa no passado, apesar da repressão. E será vitoriosa novamente. Vamos à luta.
 
 
 
Na vídeo-coluna de hoje, o ex-ministro José Dirceu presta homenagem à geração de 68 e destaca as mesmas velhas táticas da direita antidemocrática da época e a de hoje: “Querem falsear o sistema político eleitoral, tirando o povo da decisão com o semiparlamentarismo." Com esta coluna de Dirceu, Nocaute inicia sua cobertura especial do cinquentenário do ano de 1968.
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Leia também: 
 
ENTREVISTA: ‘Não se abandona um companheiro assim’, diz Dirceu, reiterando apoio a Lula - REDE BRASIL ATUAL RBA - por Redação, 30/04/2018 19h29 - FÁBIO GÓIS, CONGRESSO EM FOCO 
 
Ex-ministro diz que muitas vezes é aconselhado a buscar asilo em outro país, mas afirma que "não pode nem quer pensar nisso" com Lula preso. “Há erros que se pode cometer, outros não

Brasília – O ex-ministro José Dirceu questionou, em entrevista concedida ao portal Congresso em Foco, veiculada hoje (30), os que lhe perguntam por que não sai do Brasil e procura asilo em algum país, diante da proximidade de ser decretada nova prisão contra ele, no processo na Lava Jato – cuja seletividade das condenações passou a ser vista como politizada e contrária às forças de esquerda. “Como é que eu vou deixar o país se o Lula está preso? Não se abandona um companheiro assim”, afirmou.

Dirceu (foto) pode voltar à prisão a qualquer momento
 
Segundo reportagem de Fábio Gois e Basilia Rodrigues, Dirceu disse: “Há erros que você pode cometer. Outros, não”, negando qualquer possibilidade que represente abandonar o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
 
Dirceu contou que está aproveitando os dias que lhe restam até o provável retorno ao cárcere no convívio com a família e amigos e buscando “trabalhar intensamente”. Segundo ele, não vê sentido em sair do país porque "Lula, o Partido dos Trabalhadores e a luta se tornaram sua vida". “A vida não é assim. Com Lula preso, não há chances de deixar o Brasil”, destacou.
 
Aos 72 anos, José Dirceu foi condenado na Ação Penal 470, referente ao mensalão, em 2012. No processo não foi comprovada prova material contra ele, mas o Supremo Tribunal Federal (STF) mudou o entendimento jurídico até então existente para adotar a tese do "domínio do fato", do jurista alemão Klaus Roxin, entendendo que, por terem sido observadas ações relacionadas à pasta que ele ocupou no governo Lula, deveria ser condenado. Menos de um ano depois, em passagem pelo Brasil, Roxin declarou que sua doutrina foi usada de forma diferente.
 
O ex-ministro cumpriu a pena até outubro de 2016, mas permaneceu preso em função da Lava Jato. Ele foi solto em maio passado, em função de um habeas corpus concedido pelo STF.
 
Recentemente, foi julgado o último dos recursos ao qual o ex-ministro tinha direito a apresentar, no Tribunal Regional Federal da 4ª Região (TRF4). Os desembargadores rejeitaram os argumentos da defesa e mantiveram sua condenação.
 
Mostrando resignação, José Dirceu chegou a rir quando os jornalistas lhe perguntaram se ele não pensou em ir para Cuba, onde se refugiou na época da ditadura militar. “Tem muita gente querendo que eu vá para Cuba mesmo”.
 
Reservas - A entrevista foi curta e concedida com certo cuidado, porque depois de ter falado com a jornalista Mônica Bergamo, do jornal Folha de S. Paulo, poucos dias atrás, Dirceu foi aconselhado pelos advogados a não mais se manifestar publicamente – sobretudo em relação a questões políticas.
 
Mas um José Dirceu bem-humorado discorreu sobre seriados que está assistindo, jogos de futebol, livros e ainda posou para fotos com pessoas que estavam saindo de uma reunião na sua casa.
 
Ressaltou, ainda, que pretende aproveitar o tempo na prisão para ler muito e espera ser beneficiado não só pela progressão de pena por bom comportamento, como também por trabalhos e estudos que podem levar à diminuição do tempo de detenção – apesar do endurecimento das regras de indulto pelo STF no final do ano passado. “Cada dia é um dia”, afirmou.
 
Leia aqui a íntegra da entrevista: CONGRESSO EM FOCO - 30/abril/2018
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A inteligência política de José Dirceu, por Rodrigo Perez Oliveira - Revista Fórum 30/abril/2018 17H35 - foto montagem Jornal GGN
 
Em novo artigo, Rodrigo Perez Oliveira analisa a mensagem transmitida por José Dirceu em sua última entrevista à Folha de S. Paulo: "Zé Dirceu, que de ingênuo nunca teve nada, sabe muito bem que o Estado brasileiro está completamente ocupado pelas forças do atraso". Leia.

Sei bem que o foco está em Lula, como não poderia deixar de ser, mas peço licença ao leitor para falar um cadinho sobre Zé Dirceu, mais especificamente sobre sua última entrevista, publicada em 28 de abril na “Folha de São Paulo”.


É que tenho a sensação que falamos pouco sobre Zé Dirceu, aquele que talvez seja o melhor quadro da história da esquerda brasileira.
 
Falar pouco sobre Zé Dirceu é um erro gravíssimo, pois foi exatamente por isso que não demos a devida atenção ao que aconteceu na Ação Penal 470, no julgamento do “Mensalão”.
 
Tudo começou ali: a criminalização da esquerda, a condenação seletiva de lideranças populares com base em indícios, o concubinato entre o Sistema de Justiça e a mídia hegemônica. O mensalão foi o ensaio geral do golpe. Mas não é disso que quero falar. Quero falar mesmo é da entrevista, pois temos ali uma aula de política.
 
Mas como assim “política”? O que é “política”?
 
A definição mais antiga de política que sobreviveu ao tempo e chegou a nós foi desenvolvida por Aristóteles em algum momento no IV século a.C.
 
O grego nos apresenta uma definição de “política” que me parece ser a chave ideal para a compreensão da trajetória pública de José Dirceu, algo que fica muito claro na entrevista que o ex-ministro concedeu à Folha de São Paulo.
 
“EU NÃO POSSO BRIGAR COM A CADEIA.” - Esse é o título, em letras garrafais, da entrevista.
 
Sei que à primeira vista parece conformismo.
 
Parece que Zé Dirceu é um velho fraco, entregue, passivo. Mas tão logo passamos pelo título essa sensação se dilui no ar. Não é fraqueza, não é fragilidade. É inteligência política. É inteligência política no sentido aristotélico.
 
Vejamos como é possível esse salto da antiguidade grega ao Brasil contemporâneo, de Aristóteles a Zé Dirceu.
 
No tratado “Ética a Nicômaco”, Aristóteles faz uma crítica à ética política platônica. Para Platão, a ética na política deveria ser fundada na ideia de “bem comum”. Ou seja, o político deveria agir conduzido por ideias universais, gerais, a respeito do bem e do mal.
 
Aristóteles, antecipando em séculos o que seria formulado de maneira mais clara por autores como Tomás de Aquino e Maquiavel, diz que não é bem assim. Aristóteles diz que na política a ética precisa ser específica, que não pode deixar se levar por generalidades, pois cada evento político é único.
 
Nas palavras do próprio Aristóteles:
 
“Uma vez que a presente investigação não visa ao conhecimento teórico como as outras — porque não investigamos para saber o que é a virtude, mas a fim de nos tornarmos bons, do contrário o nosso estudo seria inútil —, devemos examinar agora a natureza dos atos, isto é, como devemos praticá-los; pois que, como dissemos, eles determinam a natureza dos estados de caráter que daí surgem.” (ARISTOTELES, 1991, p. 30).
 
Sei que texto é meio truncado, confuso, mas o sentido é fácil de entender. O grego está falando que o objetivo do estudo político não é viajar em teorias, mas sim se debruçar sobre as especificidades dos fatos. Aristóteles chamou de “phronesis” essa ética circunstanciada, adequada aos eventos políticos.
 
Caberia, então, ao homem político a atuação sempre contextualizada, levando em conta os limites das circunstâncias. Quando a realidade se apresenta na sua dimensão mais opressora, restaria ao político entende-la, sabendo que somente é possível modificá-la parcialmente, dentro dos limites que já estão postos. O político seria, nesse sentido, o especialista nas possibilidades e não herói quixotesco que luta contra moinhos de vento como quem se debate com poderosos gigantes.
 
Mas o que isso tudo tem a ver com Zé Dirceu?
 
Para responder, voltamos ao título da entrevista.
 
“EU NÃO POSSO BRIGAR COM A CADEIRA”.
 
Zé Dirceu sabe muito bem que o Estado é o objeto das disputas políticas. Na prática, o que as forças políticas fazem é disputar o Estado.
 
Sempre que se envolvem em campanha eleitoral, sempre que fomentam um golpe ou sempre que trocam chumbo e pólvora em guerra civil, é o controle do Estado o objetivo dos grupos organizados politicamente.
 
E o Estado é um latifúndio enorme, muito grande mesmo.
 
Dificilmente, um grupo consegue ocupar sozinho todo o latifúndio do Estado. Por isso, as disputas pelo controle do Estado não se dão apenas fora dele, onde os grupos excluídos do poder tentam entrar. As disputas também acontecem dentro do próprio Estado, onde os grupos já estabelecidos disputam território, tentam aumentar o espaço do seu quinhão de poder e, por consequência, diminuir o tamanho do quinhão do grupo rival.
 
Em 2003, quando Lula subiu a rampa, o campo popular ocupou um pedaço do Estado. Um quinhão relevante e importante, mas apenas um lote. Os outros lotes, os pedações, sempre estiveram sob o controle das forças do atraso. Quem pensou diferente, quem achou que tendo apenas a Presidência da República seria possível revolucionar a sociedade brasileira, foi ingênuo, muito ingênuo. Em política, a ingenuidade é o pior dos vícios.
 
Zé Dirceu, que de ingênuo nunca teve nada, sabe muito bem que o Estado brasileiro está completamente ocupado pelas forças do atraso. Esse foi o resultado político mais nefasto do golpe. As forças do atraso, que já ocupavam o Legislativo e o Sistema de Justiça, agora estão também com o controle do Poder Executivo. Numa situação dessas, não sobra muito espaço para devaneios e esperanças tolas.
 
“O país vive uma situação de insegurança e instabilidade, de violação dos direitos e garantias individuais. O aparato judicial policial se transformou em polícia política”.
 
Zé Dirceu sabe que para sua própria saúde mental é importante não brigar com a cadeia. Ele saber que precisa conviver amigavelmente com Eduardo Cunha, com Palocci e outros que estão por lá. Pouco importa se Cunha foi um dos principais artífices do golpe. Pouco importa se Palocci é o antigo companheiro desonrado. Dentro da cadeia são todos presos, dividem os mesmos metros quadrados. É bom que o convívio seja cordial.
 
Não adianta brigar com uma realidade tão difícil, tão opressora. Não adianta evocar uma ideia abstrata de “justiça” segundo a qual inocentes não são presos e todos são iguais perante a lei. Não é isso que está acontecendo no Brasil, e já há algum tempo.
 
Mas não confundam a agudeza de percepção com conformismo. Mesmo com todas as dificuldades, há algo a ser feito, e é disso que Zé Dirceu fala na entrevista. A entrevista tem, justamente, essa função. Zé Dirceu está falando para seus correligionários que a ação precisa ser calculada dentro das possibilidades abertas pela realidade.
 
O campo popular não ocupou as forças armadas, não ocupou os aparelhos policiais do Estado. Não adianta acalentar o desejo de resistência pela força. Zé Dirceu já viveu muito, já passou por muita coisa para saber que somente devemos usar a força quando temos alguma chance de vencer, quando temos algum poder de fogo. Não é esse o caso, não temos nenhum poder de fogo.
 
Fazemos o que, então? Zé Dirceu explica, com didática de professor:
 
“Como minha vida é o PT e o projeto que Lula lidera, eu tenho que me preparar para continuar fazendo política. Eu não posso me render ao fato de que vou ser preso.”
 
O melhor a fazer, então, é se adaptar às circunstâncias continuar fazendo política. A agenda de José Dirceu está focada menos na sua liberdade pessoal e mais no seu direito de continuar fazendo política, mesmo que preso, ainda que de dentro da cadeia.
 
Trata-se de Franciscanismo? De um sentimento nobre de abnegação? Zé Dirceu não deseja ser solto, ter o corpo livre, poder ir e vir sem constrangimentos?
 
É claro que ele quer ser solto. Porém, ao olhar pra realidade, o cabra percebe que no atual estado das coisas, o desejo é improvável.
 
Desejo improvável deve ser evitado.
 
Desejo improvável inviabiliza a capacidade de desejar, pois quando desejamos o improvável, deixamos de desejar o possível.
 
O possível, para José Dirceu, hoje, é continuar fazendo política, é continuar disputando o Estado, agora fora dele, completamente fora dele. Continuar fazendo política e esperando um momento político melhor, onde seja possível voltar a ocupar um quinhão do Estado.
 
Pra isso, tem que investir na campanha eleitoral, tem que eleger senadores, deputados. Pra isso, é importante eleger um Presidente que seja disputável. Zé Dirceu sabe que a candidatura de Lula é improvável, quase impossível.
 
Zé Dirceu sabe que não existe um herdeiro claro e que já começarão as lutas fratricidas pelo legado de Lula. Por isso, o fundamental é evitar a eleição de um tucano puro sangue, de um candidato explicitamente vinculado aos interesses do mercado. A todo custo, o campo popular deve impedir a vitória de Geraldo Alckmin, que na prática significaria a lavagem eleitoral do golpe.
 
Para isso, diz Zé Dirceu, até mesmo a candidatura de Joaquim Barbosa pode ser importante, útil.
 
Não custa lembrar que Joaquim Barbosa foi o principal algoz de José Dirceu.
 
Dirceu, preso, cumprindo a pena que lhe foi imposta por Barbosa, afirma que a candidatura do seu carrasco pode ser cooptada pela esquerda. Na ausência de Lula, na ausência de um herdeiro viável, se só sobrar Joaquim Barbosa como adversário do candidato do golpe, o campo popular não deve hesitar em escolher um lado.
 
Se o voto em Barbosa significar o veto a Alckmin, o campo popular não pode hesitar. O mesmo vale para Ciro Gomes, para Boulos ou para qualquer outra candidatura que seja minimamente disputável pela esquerda.
 
Encerro com uma confissão pessoal.
 
Aprendo sobre política sempre que leio Aristóteles. Aprendo sobre política sempre que leio e ouço Zé Dirceu. É que os dois estão dizendo algo muito parecido.
 
Estão dizendo que, no limite, o homem político deve agir como Sancho, como o leal escudeiro que com alguma impaciência e com agudo senso de realidade diz a Quixote: “Moinhos de vento não são gigantes. Lide com isso e pare com os devaneios”.
 
Rodrigo Perez Oliveira Rodrigo Perez Oliveira: Nasceu no Rio de Janeiro em 30/01/1986, é historiador, tendo se formado na educação pública das primeiras letras ao doutorado. Vivendo em Salvador desde 2017, onde atua como professor de Teoria da História na Universidade Federal da Bahia, o autor pesquisa a história do pensamento político brasileiro e os usos do passado no texto historiográfico e nas narrativas políticas, temas que foram explorados nos livros “As armas e as letras: a Guerra do Paraguai na memória oficial do Exército brasileiro”, publicado pela editora Multifoco em 2013, e “Conversas sobre o Brasil: ensaios de síntese histórica”, pela editora autografia em 2017.
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Sobre a entrevista de José Dirceu, por Gilberto Maringoni (foto) - Jornal GGN SEG, 21/05/2018 - 20:29 - ATUALIZADO EM 21/05/2018 - 20:31 - Fotomontagem GGN - Dirceu e Fidel 


José Dirceu sofre uma injusta e assimétrica perseguição política por parte da República de Curitiba, da mídia e da direita, o que vem a ser a mesma coisa. Há pelo menos uma década, sua reputação é constantemente triturada em rede nacional. Sua resistência é admirável.

É dever de todo democrata externar solidariedade ao ex-ministro diante do arbítrio golpista.
 
Politicamente não tenho nenhuma simpatia por Dirceu. Apesar de ter uma respeitável história de vida no período da ditadura – que inclui uma arriscada volta clandestina ao Brasil, nos anos 1970 -, há pelo menos duas décadas não me parece que sua ação vise algum processo de mudança social consequente.
 
Dirceu é um competente pragmático que logrou transformar um partido dividido em uma máquina eleitoral eficiente. Sem sua liderança, a vitória de Lula em 2002 não existiria. O ex-chefe da Casa Civil levou a cabo sua missão a ferro e fogo, passando por cima de grupos minoritários e intervindo em seções estaduais, quando isso foi conveniente para a formação de uma maioria partidária estável.
 
Fora do governo, José Dirceu tornou-se lobista de grandes transnacionais junto ao governo brasileiro. Não é algo ilegal, mas representa atividade politicamente incompatível com alguém que se pretenda uma liderança de esquerda.

Dirceu concedeu uma entrevista ao jornal Brasil de Fato, antes de ser preso. Ao longo das respostas, ele denuncia o golpe e busca fazer uma autocrítica genérica e sem muito foco da ação de sua agremiação no governo federal. É positivo, mas insuficiente para que se entendam as opções tomadas pelo Partido dos Trabalhadores na última década e meia.
 
Autocrítica nada tem a ver com pedido de desculpas ou com arrependimento. Na verdade, a autocrítica é o início de uma formulação para a ação, um balanço político do realizado até determinado ponto. Examina-se a situação objetiva em época específica, a consciência de quem conduzia o processo e as opções disponíveis. Dirceu não faz isso. Apenas diz erramos aqui, acertamos ali e ponto. Não há decorrências práticas do que fala.
 
Vale destacar três afirmações do ex-presidente do PT:
 
1. “NO CASO PARTICULAR, nós estivemos no governo um período maior: 13 anos e meio. Um processo bem longo de hegemonia política. Ganhar quatro eleições em um país como o Brasil não é para amador”.
 
POR MAIS ELÁSTICO que seja o conceito de hegemonia política, é muito difícil concordar com a ideia de que o PT teve 13 anos de hegemonia política. Nesse período, apenas na seara econômica, o partido incorporou teses muito caras ao neoliberalismo, como ajuste fiscal, recessão como forma de depreciar a força de trabalho, política de juros altos para se combater a inflação e, em alguns períodos, política fiscal expansiva. Ou seja, apesar “ganhar quatro eleições”, a agremiação adotou como suas as ideias do campo adversário. A hegemonia política era do neoliberalismo, em especial no primeiro governo Lula e no último de Dilma.
 
2. “O PROBLEMA É QUE NÓS FIZEMOS pouca politização e pouca disputa política a partir dos programas que tínhamos. Essa é uma realidade. E não criamos nenhum nível de organização alternativa”.
 
O PROBLEMA É QUE Dirceu trata politização como algo solto no ar. Não se sabe por qual razão ele tira de cena a necessidade de se despolitizar o partido para transformá-lo em máquina eleitoral potente. Isso seria impossível com um partido questionador e rebelde.
A partir de 1994, o PT começa – de forma clara – a receber doações empresariais, em especial de bancos. Nada fora das regras institucionais.
Para que isso acontecesse e para que a legenda fizesse o giro de prometer não tocar em nenhum ponto estruturante da institucionalidade quando chegasse ao governo, era preciso despolitizar suas ações. Isso se deu a partir da Carta aos Brasileiros, de 2002. As consequências mais visíveis é que, além de atrair gente como Delcídio Amaral e Andrés Sanches, o partido, ao longo de 13 anos buscou jamais se confrontar com qualquer interesse dos de cima. Assim, as 13 indicações petistas ao STF foram materializadas apenas com juristas de direita, as bases da política monetária de FHC foram mantidas, não se andou um milímetro na democratização das comunicações e a Lei de Anistia tornou-se cláusula pétrea da institucionalidade.
 
3. “TAMBÉM SUBESTIMAMOS A DIREITA e as forças contrárias a nós. Em parte, porque grande parte dos quadros foi para o governo. (...) Acabamos priorizando mais a luta institucional e eleitoral, mais o ato de governar do que a organização partidária e ainda [menos] a politização e mobilização”.
 
A AFIRMAÇÃO beira o inacreditável. Primeiro, o PT subestimou a direita não em embates de projetos, mas ao se compor com ela sem tensionar a aliança com demandas populares que ferissem interesses dos ricos. Segundo, Dirceu, tacitamente, afirma que os competentes foram para a administração e os menos aptos ficaram no partido. E terceiro, o ex-ministro contrapõe, espantosamente, “luta institucional” a politização. Trata-se de uma sucessão de loopings retóricos sem comprovação real.
 
Haveria mais a falar, mas o essencial está aqui. Não vou me alongar.
 
Nada disso justifica a infâmia cometida contra Dirceu. Minhas observações ficam como contraponto político a um dirigente que está sendo vítima de uma perseguição covarde. A ele, solidariedade incondicional.
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