30 de julho, 2018
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Jornal GGN: Xadrez da maior aposta de Lula, por Luis Nassif

Peça 1 – entendendo a estratégia
A estratégia do PT para as eleições consiste dos seguintes passos:

Passo 1 – a pré-campanha, mantendo a candidatura de Lula até o fim

Objetivo – manter o eleitorado coeso, aumentar a adesão ao candidato permitindo até aumentar sua força eleitoral e fortalecendo o ungido, que deverá substituir Lula.

Jornal GGN - O Jornal de todos Brasis - Luis Nassif Online  - DOM 22/07/2018 - 20:53 - ATUALIZADO EM 26/07/2018 - 17:02

Passo 2 – a campanha do 1º turno

São feitas duas apostas na cabeça de Lula.

A primeira é que a jurisprudência do STF (Supremo Tribunal Federal) permite a candidatura de candidatos condenados em 2ª instância. Ela será por conta e risco do candidato. Lula imagina que, se eleito não haverá como despojá-lo da presidência.

A segunda convicção é que, quanto mais prorrogar a candidatura, mais a opinião pública entenderá a perseguição de que está sendo alvo, e maior será a transferência de votos para o seu candidato.

Passo 3 – o 2º turno
Passando para o 2º turno, montar o arco de alianças de esquerda para enfrentar o candidato de direita: Bolsonaro ou Geraldo Alckmin.

Passo 4 – o 3º turno
Vencendo as eleições, enfrentar as ameaças de impugnação, confiando no clamor popular.

Peça 2 – a correlação de forças
Como Garrincha já dizia, faltou combinar com os russos.

Eleição não se confunde com Poder. Em países democráticos, todo poder emana do povo. Em situações de estado de exceção, como a atual, o povo, ora, o povo! O sentimento democrático desaparece até de quem deveria defender a Constituição, o STF (Supremo Tribunal Federal) e a Procuradoria Geral da República (PGR)

Grosso modo, a estrutura de Poder é representada pelos seguintes grupos.

1- Mídia, melhor dizendo, Globo, potencializando a influência do mercado.

2- Judiciário: a corrente Lava Jato, TRF4, STJ/TSE à STF, francamente anti-PT e disposta a punir os recalcitrantes internos.

3- Os empresários, subdivididos em três grupos: as associações empresariais, as grandes corporações e o mercado. As associações aceitam até Bolsonaro; mais informadas, as grandes corporações não chegam a tanto. Mas em todos eles consolidou-se o sentimento anti-PT.

4- O poder armado: Forças Armadas, Política Federal e Polícia Militar. Estão a reboque do poder central, mas sempre disponíveis para utilizar o poder da borduna contra os inimigos.

5- O crime organizado e as milícias.

6- Finalmente, os setores minoritários:
Sindicatos de trabalhadores.
Movimentos populares
Mídia alternativa
Setores da sociedade civil
Setores minoritários da Justiça
Consciências individuais que participam dos poderes anteriores.


Em relação à correlação de forças, há uma frente fechada anti-PT, uma aliança tão intransponível, que tacitamente admite até a alternativa Bolsonaro, se for para evitar a volta de Lula.

Esse é um dado da realidade, que não será removido com o uso da fé. Historiadores já descreveram a marcha da insensatez que acomete nações e civilizações. O Brasil claramente atravessa um desses momentos, sem que uma massa crítica de racionalidade se interponha no caminho do desastre.

Enquanto essa frente tosca não for rompida, não se deve alimentar nenhuma veleidade de se impor em nome do estado de direito e da consciência democrática.

Restam as eleições, como tentativa de freada de arrumação.

Dentro de cada Poder existem as pessoas de bom senso percebendo a loucura. Mas não ousam colocar o pescoço para fora, temendo – com razão – serem alvos de represália. Daí a importância das eleições e de saídas que, se não forem o sonho ideal do eleitor, pelo menos represente uma redução de danos do futuro próximo.

Peça 3 – o que os russos irão fazer
Entendido isso, vamos a uma análise da estratégia de Lula, colocando os russos – o Poder – em campo.

Etapa 1 – a pré campanha

Já se tem os resultados aí. 

Houve o absurdo da juíza da execução impedir até entrevistas de Lula, e não haver nenhum poder capaz de revogar o arbítrio.
Conseguiu-se, com isso, afastar Lula de qualquer articulação política. E, pior ainda, nenhuma liderança petista se habilitou a essas negociações.

Por outro lado, fortaleceu a imagem de Lula e a percepção da perseguição política a que está exposto. Além disso, manteve a união do PT, evitando a implosão do partido, que poderia se converter em um arquipélago de tendências e regiões, perdendo a noção de projeto nacional.

Etapa 2 – o 1º turno
Agora se entra na parte mais delicada, de definição da estratégia para o 1º turno.

O que se tem de objetivo:

Jair Bolsonaro mantendo seu índice de votação.
Geraldo Alckmin fazendo a liga entre o governo Temer, o mercado e a mídia, montando um arco de alianças que o deixará sozinho no campo da direita.
Aí entra o fator transferência de votos de Lula. Não se sabe quem será o ungido, mas em apenas 20 dias o eleitor terá que saber que ele é o indicado de Lula.

Haverá o seguinte desenho no período:

A PGR e a Lava Jato, em parceria com a mídia, soltando denúncias a torto e a direito contra o ungido.
A mídia tratando-o como corrupto e recorrendo a toda sorte de factoides, que não serão  eternos, posto que factoides, mas infinitos enquanto durar o 1º turno.
O PT com 90 segundos por dia para informar o eleitor quem é o candidato de Lula. E ainda dividindo votos especialmente com Ciro Gomes.
Blogs e portais independentes falando para o público de militantes e para os democratas dispersos.

Etapa 3 – o 2º turno

Na hipótese do ungido passar para o 2º turno, haverá uma guerra mundial. A jurisprudência do Supremo, TSE, TRE e o escambau serão  confrontadas com o estado de exceção em vigor.

Etapa 4 – a pós-eleição

E, afianço, nem o algoritmo do Supremo ou do TSE terá muito trabalho, porque a maioria dos Ministros e juízes já faz parte da frente anti-Lula e votará com o que o Poder for determinar.

Peça 4 – a revisão da estratégia
Com o auxílio do tapetão, as possibilidades de um 2º turno com Alckmin e Bolsonaro é real. Há que se analisar, então, o segundo tempo da estratégia. Esse é o busílis da questão.

Na luta contra a droga, adota-se a política de redução de danos.

Lula está fazendo a maior aposta da sua vida.

Não se pode dizer que Judiciário, Ministério Público, a própria Polícia Federal, sejam organizações homogêneas. Os abusos antidemocráticos cometidos contra Lula, as negociatas com o serviço público, a incapacidade de recuperação da economia, a volta do país ao mapa da fome, decorrem de uma aliança pontual cimentada pelo antipetismo, com um poder de represália capaz de demover as reações individuais internas em cada setor. Repito: o único fator de coesão desse banquete bárbaro é o anti-petismo.

Só se recuperará o caminho democrático se se romper essa aliança. E, aí, exigirá uma articulação que vá  além do PT, que seja multipartidária, e, mais que isso, suprapartidária.

Mais quatro anos do estilo Temer, aprofundado com a eleição de Alckmin, significará jogar definitivamente as forças democráticas no gueto, os movimentos populares na clandestinidade e os direitos sociais no lixo.

Prosseguirá a demolição de qualquer ponto de resistência, o próprio PT, sindicatos, governadores de oposição, imprensa independente, juízes independentes, procuradores que defendam direitos humanos e, especialmente, uma certa convicção democrática que começa a florescer internamente nesses poderes, fruto dos abusos reiterados de Temer e companhia.

O que está em jogo é o legado de Lula e seu próprio futuro político e seu papel na história. Se falhar nessa aposta de tudo-ou-nada, esquerda, centro-esquerda, forças democráticas estarão definitivamente fora do jogo. E Lula se tornará apenas um retrato na parede, lembrando os tempos em que o país parecia ter encontrado o seu destino.

Daí a importância de se analisar a política de redução de danos e compor a frente democrática antes que seja tarde. Mesmo que signifique o PT abdicar de um protagonismo que, por direito, deveria ser seu.
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Leia também: 

O pleito de outubro e a divisão das forças populares, por Roberto Amaral no Brasil247 em 24/jul/2018

"(...) A dificuldade de interpretação histórica persiste e quem não compreende o processo social está fadado a repetir os erros, e perder.

É mais do que evidente que o quadro de nossos dias (como nossos dias refiro-me ao transe que se revelando claramente nas eleições de 2014 nos chega hoje como esfinge a ser decifrada) é diverso, até porque nenhum momento histórico é reprodutor de fatos passados. Mas, novamente, quanto mais necessitamos de unidade, mais nos dispersamos, e, uma vez mais, subestimando a profundidade e a qualidade da crise.

O que podemos chamar de campo das esquerdas divide-se, por deformação intrínseca, na leitura autista do processo eleitoral, e, incapaz de ultrapassar as aparências, se divide na tentativa de interpretação do processo em curso. Quem não entende o presente não pode pesar no futuro..."


Jornal GGN: Xadrez da lógica do PT com as eleições, por Luis Nassif - TER, 24/07/2018 18:49 - ATUALIZADO EM 26/07/2018 - 16:53

"(...) De uma lapada só o golpe liquidou com o pacto social de Lula, com a Constituição de 1988 e com a herança de Vargas. Foi gestada pelo PSDB, com a Ponte para o Futuro, implantada no governo Temer e será aprofundada no governo Alckmin.

É um projeto de poder que consiste em:
* Venda das riquezas naturais
* Privatização selvagem
* Apropriação da renda do trabalhador e dos fundos sociais.
* Eliminação das políticas sociais.
* Destruição do conceito de nação.

A direita não conseguiu produzir um projeto de país, uma visão de futuro minimamente razoável, nem um candidato competitivo. O único nome em que apostam, agora, é Geraldo Alckmin, que, na campanha, terá de esconder não apenas a natureza de suas propostas, como as alianças com o fisiologismo mais nefasto da República e as ligações com o governo Temer. É pouco?

(...) Por tudo isso, a ideia é levar a candidatura Lula até o último momento. Sabem dos riscos, da aliança do golpe que junta Judiciário-mercado-mídia-Temer-PSDB. Mas entendem que o risco maior seria a esquerda passar por diluição no momento em que a direita radicaliza seu programa..."

Muita calma nessa hora! Por Ciro Gomes no site do PDT - 03/ago/2018 

"Em nenhuma hipótese é o PT o nosso inimigo", diz Ciro Gomes em carta aberta, por Luis Nassif no Jornal GGN - O pré-candidato do PDT à Presidência Ciro Gomes divulgou um artigo na tarde desta sexta (3) criticando o acordo do PT com o PSB para isolá-lo na eleição deste ano, mas ressaltou que não por isso vai tratar o partido de Lula como inimigo na disputa. No texto, Ciro lembra que foi fiel a Lula por 16 anos e, inclusive foi "convidado" a deixar o PSB quando Eduardo Campos foi preterido na escolha de Dilma Rousseff como a sucessora de Lula. Apesar disso, Ciro diz que o Brasil não aguenta outra "aposta no escuro", em alusão ao plano B do PT nesta eleição. Isto porque, conforme reafirmou Ciro, a Lula dificilmente será permitido que participe da corrida presidencial... 
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