03 de março, 2014
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CULTURA, CARNAVAL (2): MESTRE CANDEIA E QUILOMBOS, A ESCOLA NA VOLTA ÀS RAÍZES

Na matéria anterior foi a história de Antonio Candeia Filho, o Mestre Candeia. Este texto complementa ao outro, mostrando  lado de sua vida, que era o trabalho de recuperar as raízes do samba e em especial das escolas de samba.
 
Texto de autoria ALA DE BAIANAS com a história do GRES QUILOMBO, (http://aladebaianas.com.br/w/index.php/novidades/182-candeia-portela-e-os-quilombos-da-escola)
 
 
Em 8 de dezembro de 1975,  há 38 anos, no Rio de Janeiro, foi fundada a GRES QUILOMBO, a primeira dissidência da GRES PORTELA, em Coelho Neto, zona norte do Rio de Janeiro. A fundação fora liderada Antonio Candeia Filho, o Candeia, mitológico sambista carioca, autor de clássicos que até hoje são relembrados por antigos e jovens admiradores.
 
 
A segunda dissidência da GRES PORTELA fora a criação da GRES TRADIÇÂO, fundada, em 1984, em Campinho, também zona norte. Foi fundada pelos filhos e descendentes de José Natalino, o NATAL DA PORTELA, um dos fundadores da grande escola de Madureira. 
No caso da GRES QUILOMBO, que nunca desfilou no grupo especial, sua postura/tradição chamava os olhos naquela época. Entre os que assinaram sua ata de fundação estavam  nomes llustres como Paulinho da Viola, Monarco, Eduardo Coutinho, Jacira Silva, Nei Lopes, André Mottta Lima, Carlos Saboia Monte (pai de Marisa Monte), Cláudio Pinheiro, Paulinho da Viola e tantos outros.
 
Na verdade, a GRES QUILOMBO era um grande projeto estético-político. 
Em primeiro lugar, se identificava com as populações quilombolas, principalmente com Zumbi dos Palmares, já que sua quadra era um verdadeiro quilombo. 
 
Ou seja, a escola fugia do modelo habitual para se inserir na mais perfeita tradição das culturas africanas.
 
Por outro lado, pretendia ser um resgate das grandes tradições do samba carioca, pois, firmava pé no chamado samba de raiz, valorizando batuqueiros das quadras, dos botecos, das esquinas, que não tinham vez na mídia, e cujas obras fugiam dos modelos assumidos pela indústria cultural da época. 
 
Em terceiro, ela, a GRES QUILOMBO, era uma escola que tinha um relicário de tradições estéticas, pois, trazia uma proposta de revigoramento das tradições afro começadas/sedimentadas por Paulo da Portela, pelas  famosas tias baianas da Praça Onze. 
Em quarto:  era uma escola afro e que não seria de certa forma  “contaminada” pelos ditames do capitalismo do carnaval carioca. NR: Paulinho da Viola (foto acima) também ja havia rompido com a Portela e foi um dos junto com Candeia e outros fundaram a Quilombos
 
Mais ainda:  a escola buscava ser uma alternativa ao mundo samba da época, bastante influenciado pelos valores de classe media. 
 
NR: o reconhecimento da arte de Candeia, nos artista de hoje, Zeca Pagodinho e Marisa Monte na foto abaixo
A GRES Quilombo, neste contexto, pretendia ser um retorno à tradição cultural afro do samba, um novo mergulho nas raízes do samba, o retorno à tradição negra das grandes escolas e uma nova maneira de encarar a indústria do carnaval.
 
Neste sentido, entre suas maiores contribuições, trata-se do  “Manifesto” de fundação da GRES Quilombo, pois, neste raro documento afro-estético,  os sambistas, naquela época, 1975,   identificavam diversos problemas políticos e administrativos  e também estéticos – que dificultavam a ascensão das escolas de samba como produto genuinamente  afro- nacional.
 
Leonel Brisola e Darcy Ribeiro, quando governaram o RJ, prestaram sua homenagem:
 
Com base no livro “Candeia: luz da inspiração”, de João Batista M. Vargens (Martins Fintes/Funarte, RJ, 1987), apresentamos um resumo do manifesto dos sambistas da Portela que criaram a GRES Quilombo. 
 
“INTRODUÇÃO”
 
Escola de samba é Povo em sua manifestação mais autêntica!
 
Quando se submete às influências externas, a escola de samba deixa de representar a cultura de nosso povo.
 
Se hoje em dia são unânimes opinião e posição contrárias da imprensa em relação à Portela, é porque a Portela, apesar de sua tradição de glória, se deixou descaracterizar  pelas interferências de fora. Aceitou passivamente as idéias de um movimento que, sob o pretexto de buscar a evolução, acabou submetendo o samba aos desejos e anseios das pessoas que nada tinham a ver com o samba. (...) NR: imagem ao lado, ZUMBI lider do Quilombo dos Palmares, AL
 
Durante a década de sessenta, o que se viu foi a passagem de pessoas de fora, sem identificação com o samba, para dentro das escolas. O sambista, a princípio, entendeu isso como uma vitória do samba, antes desprezado e até perseguido. O sambista não notou que essas pessoas não estavam na escola para prestigiar o samba. E aí as escolas de samba começaram a mudar. Dentro da escola, o sambista passou a fazer tudo para agradar essas pessoas que chegavam. Com o tempo, o sambista acabou fazendo a mesma coisa com o desfile.
 
(...) A  Portela adotou a Águia porque era o símbolo do que voa mais alto, acima de todos. E, inatingível, a Portela nunca imitava nada dos outros. Sempre criava. Hoje, o que a Portela está fazendo é procurar copiar o que se pensa que está dando certo em outras escolas.
Voltando a olhar o samba por si  mesma, a Portela voltará a ter os valores imprescindíveis, que tanto serviram para afirmar sua glória. Enganam-se os que pensa, ser impossível recobrar esses valores.
 
O MANIFESTO
Estou chegando...
 
Venho com fé. Respeito os mitos e tradições. Trago um canto negro. Busco liberdade. Não admito moldes.
 
As forças contrárias são muitas. Não faz mal...Meus pés estão no chão. Tenho certeza da vitória.
Minhas portas estão abertas. Entre com cuidado. Aqui, todos podem colaborar. Ninguém pode imperar.
 
Teorias,  deixo de lado. Dou vazão à riqueza de um mundo ideal. A sabedoria é meu sustentáculo. O amor é meu principio. A imaginação é minha bandeira.
 
NR: em 20/11/1981 na Praça do Carmo em Recife foi celebrada pela 1ª vez a Missa dos Quilombos, de autoria do escritor e poeta Pedro Tierra,  do Bispo Católico D. Pedro Casaldáliga e do Cantor e Compositor Milton Nascimento e a partir de então, o 20 de novembro passou a ser comemorado como o Dia da Consciência Negra. 
 
Não sou radical. Pretendo, apenas, salvaguardar o que resta de uma cultura. Gritarei bem alto explicando um sistema que cala vozes importantes e permite que outras totalmente alheias falem quando bem entendem. Sou franco-atirador. Não almejo glórias. Faço questão de não virar academia. Tampouco palácio. Não atribua a meu nome ao desgastado sufixo ao. Nada de forjadas/malfeitas especulações literárias. Deixo os complexos temas à observação dos verdadeiros intelectuais. Eu sou povo. Basta de complicações. Extraio o belo das coisas simples que me seduzem.
 
Quero sair pelas ruas dos subúrbios com minhas baianas rendadas sambando sem parar. Com minha comissão de frente digna de respeito. Intimamente ligada às minha origens.
 
Artistas plásticos, figurinistas, coreógrafos, departamentos culturais, profissionais: não me incomodem, por favor.
 
Sintetizo um mundo mágico.
 
Estou chegando....
 
NR: o carnaval da apoteose e luxo, onde o artista principal, o povo é mero coadjuvante
 
CRITICAS QUE JULGAMOS CONSTRUTIVAS
 
A centralização se tornou demasiada na Portela. As diretorias, de algum tempo para cá, passaram a não mais ouvir as solicitações do componente, nem procurar explicar a ele suas decisões. A organização do Carnaval passou a ficar a cargo de poucas pessoas. Muita gente fica sem saber o que fazer. No desfile, isso se reflete no grande número de diretores responsáveis, que não sabem como agir.
 
O gigantismo, sem dúvida, atrapalha a escola. Todos os setores são prejudicados por ele. É unânime a opinião de que a Portela cansa, porque ninguém aguenta ver um desfile arrastado. No entanto, o gigantismo é uma falha que decorre da própria escola e das influências externas que agem nefastamente sobre ela. Donos de alas conquistam seus figurantes, procurando angariá-los sem atender os verdadeiros interesses da Portela. Faltam medidas administrativas corajosas de eliminar esse problema.
 
 
O figurinista, ainda que famoso, precisa conhecer a Portela profundamente. Não adianta imaginar figurinos sem levar em conta os componentes da escola. Como resultante, as fantasias têm sido confeccionadas em total desacordo com os figurinos apresentados.
 
Algumas alas tomam a si a iniciativa de escolher suas próprias roupas, sem levar em conta o enredo e o figurino recebido e nenhuma medida punitiva ou preventiva é tomada pela diretoria.
 
Há anos gasta-se dinheiro para construir alegorias grandiosas. O resultado nunca é esperado, porque o responsável pelo barracão não está integrado na escola. Os carros são pesados, difíceis de conduzir, quebram e prejudicam a escola.
 
A partir de determinada época, generalizou-se a idéia de que a alegoria de mão era uma solução visual que emprestaria leveza e facilidade ao desfile. Na realidade, o que se vê é um obstáculo que não deixa sambar. E, além disso, as alegorias de mão ou de carro, não podem ser olhadas separadamente como um simples quesito de julgamento. São antes de mais nada partes integrantes que devem ajudar a contar o enredo e valorizar o desfile da escola.
FONTE: Vargens, João Batista M.  CANDEIA: LUZ DA INSPIRAÇÃO. Martins Fontes/Funarte, RJ, 1987.
 
 

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