20 de setembro, 2017
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Brasil: passado, presente e futuro, por Profº Jessé Souza no Instituto Federal de Avaré/SP

Teremos nesta sexta feira no IFSP Instituto Federal de SP Campus Avaré, a Palestra do Profº Jessé Souza - que é Sociólogo, Professor Universitário e Pesquisador, formado em direito pela UnB Universidade de Brasília (1981), concluiu o mestrado em sociologia pela mesma instituição em 1986. Em 1991, doutorou-se em sociologia pela Karl Ruprecht Universität Heidelberg (Alemanha), país onde obteve livre docência nesta mesma disciplina Universität Flensburg em 2006. Também fez pós-doutorado em sociologia na New School for social research, Nova Iorque, (1994/1995).

Escreveu e organizou 27 livros, em português, inglês e alemão sobre sociologia política, teoria da modernização periférica e desigualdade no Brasil contemporâneo. Atualmente é Professor Titular do Departamento de Ciência Política da UFF Universidade Federal Fluminense, em Niterói, Rio de Janeiro. Ele tem 57 anos (nascido em 29/março/1960).

Foi Presidente do IPEA Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) de abril/2015 março/2016, demitido em 2016 logo após Temer assumir a presidência.

Desde 2009, Souza empreendeu pesquisa sociológica em todo o país para confrontar a tese de que havia surgido uma "nova classe média" no país. O resultado foi a configuração de nova nomenclatura, a saber, "ralé", "batalhadores" e "ricos".

Obras de Jessé de Souza:

* A Elite do Atraso – da Escravidão à Lava Jato - 2017
* A radiografia do golpe: entenda como e por que você foi enganado. Rio de Janeiro: Leya, 2016.
* A tolice da inteligência brasileira: ou como o país se deixa manipular pela elite. São Paulo, LeYa, 2015.
* Ungleichheit in kapitalistischen Gesellschaften. Weinheim y Basel: Beltz Juventa, 2014. SOUZA, Jessé/ REHBEIN, Boike.
* Os batalhadores brasileiros: Nova classe média ou nova classe trabalhadora? Belo Horizonte: UFMG, 2010. (Coleção Humanitas) (2ª edição em 2012)
* A ralé brasileira: quem é e como vive. Belo Horizonte: UFMG, 2009.
* Die Soziale Konstruktion der peripheren Ungleicheit. Wiesbaden: VS Verlag für Sozialwissenschaften, 2008.
* A Invisibilidade da Desigualdade Brasileira. Belo Horizonte: UFMG, 2006.
* Imagining Brazil. Lanham: Lexington Books, 2006.SOUZA, Jessé (Org.)
* Das moderne Brasilien. Gesellschaft, Politik und Kultur in der Peripherie des Westens. Wiesbaden: VS Verlag für Sozialwissenschaften, 2006. KÜHN, Thomas / SOUZA, Jessé (Org.)
* A Construção Social da Subcidadania. Belo Horizonte: UFMG, 2006.
* A Modernização Seletiva: Uma Reinterpretação do Dilema Brasileiro. Brasília: UNB, 2000.

Prêmios - Menção honrosa no concurso de melhores Dissertações de Mestrado da ANPOCS (Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Ciências Sociais), 1986. fonte: Wikipédia

O IFSP Instituto Federal de SP Campus Avaré fica na Av. Professor Celso Ferreira da Silva nº 1333 - Jd. Europa (defronte ao Supermercado Pinheirão). A palestra será as 20 hs. Entrada franca - aberta ao público em geral.
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CARTA CAPITAL: Jessé Souza: “A classe média é feita de imbecil pela elite” por Sergio Lirio — publicado 23/06/2017 00h30, última modificação 24/06/2017 14h33 

Os extratos médios, diz o sociólogo, defendem de forma acrítica os interesses dos donos do poder e perpetuam uma sociedade cruel forjada na escravidão

Foto Carta Capital: "Inocentes úteis? Ou só úteis?" - "O ódio aos pobres é intenso"

Em agosto, o sociólogo Jessé Souza lança novo livro, A Elite do Atraso – da Escravidão à Lava Jato. De certa forma, a obra compõe uma trilogia, ao lado de A Tolice da Inteligência Brasileira, de 2015, e de A Ralé Brasileira, de 2009, um esforço de repensar a formação do País.

Neste novo estudo, o ex-presidente do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada aprofunda sua crítica à tese do patrimonialismo como origem de nossas mazelas e localiza na escravidão os genes de uma sociedade “sem culpa e remorso, que humilha e mata os pobres”. A mídia, a Justiça e a intelectualidade, de maneira quase unânime, afirma Souza na entrevista a seguir, estão a serviço dos donos do poder e se irmanam no objetivo de manter o povo em um estado permanente de letargia. A classe média, acrescenta, não percebe como é usada. “É feita de imbecil” pela elite.

CartaCapital: O impeachment de Dilma Rousseff, afirma o senhor, foi mais uma prova do pacto antipopular histórico que vigora no Brasil. Pode explicar?
Jessé Souza: A construção desse pacto se dá logo a partir da libertação dos escravos, em 1888. A uma ínfima elite econômica se une uma classe, que podemos chamar de média, detentora do conhecimento tido como legítimo e prestigioso. Ela também compõe a casta de privilegiados. São juízes, jornalistas, professores universitários. O capital econômico e o cultural serão as forças de reprodução do sistema no Brasil.

Em outra ponta, temos uma classe trabalhadora precarizada, próxima dos herdeiros da escravidão, secularmente abandonados. Eles se reproduzem aos trancos e barrancos, formam uma espécie de família desestruturada, sem acesso à educação formal. É majoritariamente negra, mas não só. Aos negros libertos juntaram-se, mais tarde, os migrantes nordestinos. Essa classe desprotegida herda o ódio e o desprezo antes destinados aos escravos. E pode ser identificada pela carência de acesso a serviços e direitos. Sua função na sociedade é vender a energia muscular, como animais. É ao mesmo tempo explorada e odiada.

CC: A sociedade brasileira foi forjada à sombra da escravidão, é isso?
JS: Exatamente. Muito se fala sobre a escravidão e pouco se reflete a respeito. A escravidão é tratada como um “nome” e não como um “conceito científico” que cria relações sociais muito específicas. Atribuiu-se muitas de nossas características à dita herança portuguesa, mas não havia escravidão em Portugal. Somos, nós brasileiros, filhos de um ambiente escravocrata, que cria um tipo de família específico, uma Justiça específica, uma economia específica. Aqui valia tomar a terra dos outros à força, para acumular capital, como acontece até hoje, e humilhar e condenar os mais frágeis ao abandono e à humilhação cotidiana.

CC: Um modelo que se perpetua, anota o senhor no novo livro.
JS: Sim. Como essa herança nunca foi refletida e criticada, continua sob outras máscaras. O ódio aos pobres é tão intenso que qualquer melhora na miséria gera reação violenta, apoiada pela mídia. E o tipo de rapina econômica de curto prazo que também reflete o mesmo padrão do escravismo. 

CC: Como isso influencia a interpretação do Brasil?
JS: A recusa em confrontar o passado escravista gera uma incompreensão sobre o Brasil moderno. Incluo no problema de interpretação da realidade a tese do patrimonialismo, que tanto a direita quanto a esquerda, colonizada intelectualmente pela direita, adoram. O conceito de patrimonialismo serve para encobrir os interesses organizados no chamado mercado. Estigmatiza a política e o Estado, os “corruptos”, e estimula em contraponto a ideia de que o mercado é um poço de virtudes.

CC: O moralismo seletivo de certos setores não exprime mais um ódio de classe do que a aversão à corrupção?
JS: Sim. Uma parte privilegiada da sociedade passou a se sentir ameaçada pela pequena ascensão econômica desses grupos historicamente abandonados. Esse sentimento se expressava na irritação com a presença de pobres em shopping centers e nos aeroportos, que, segundo essa elite, tinham se tornado rodoviárias.

A irritação aumentou quando os pobres passaram a frequentar as universidades. Por quê? A partir desse momento, investiu-se contra uma das bases do poder de uma das alas que compõem o pacto antipopular, o acesso privilegiado, quase exclusivo, ao conhecimento formal considerado legítimo. Esse incômodo, até pouco tempo atrás, só podia ser compartilhado em uma roda de amigos. Não era de bom tom criticar a melhora de vida dos mais pobres.

CC: Como o moralismo entra em cena?
JS: O moralismo seletivo tem servido para atingir os principais agentes dessa pequena ascensão social, Lula e o PT. São o alvo da ira em um sistema político montado para ser corrompido, não por indivíduos, mas pelo mercado. São os grandes oligopólios e o sistema financeiro que mandam no País e que promovem a verdadeira corrupção, quantitativamente muito maior do que essa merreca exposta pela Lava Jato. O procurador-geral, Rodrigo Janot, comemora a devolução de 1 bilhão de reais aos cofres públicos com a operação. Só em juros e isenções fiscais o Brasil perde mil vezes mais.

CC: Esse pacto antipopular pode ser rompido? O fato de os antigos representantes políticos dessa elite terem se tornado alvo da Lava Jato não fragiliza essa relação, ao menos neste momento?
JS: Sem um pensamento articulado e novo, não. A única saída seria explicitar o papel da elite, que prospera no saque, na rapina. A classe média é feita de imbecil. Existe uma elite que a explora. Basta se pensar no custo da saúde pública. Por que é tão cara? Porque o sistema financeiro se apropriou dela. O custo da escola privada, da alimentação. A classe média está com a corda no pescoço, pois sustenta uma ínfima minoria de privilegiados, que enforca todo o resto da sociedade. A base da corrupção é uma elite econômica que compra a mídia, a Justiça, a política, e mantém o povo em um estado permanente de imbecilidade.

CC: Qual a diferença entre a escravidão no Brasil e nos Estados Unidos?
JS: Não há tanta diferença. Nos Estados Unidos, a parte não escravocrata dominou a porção escravocrata. No Brasil, isso jamais aconteceu. Ou seja, aqui é ainda pior. Os Estados Unidos não são, porém, exemplares. Por conta da escravidão, são extremamente desiguais e violentos. Em países de passado escravocrata, não se vê a prática da cidadania. Um pensador importante, Norbert Elias, explica a civilização europeia a partir da ruptura com a escravidão. É simples. Sem que se considere o outro humano, não se carrega culpa ou remorso. No Brasil atual prospera uma sociedade sem culpa e sem remorso, que humilha e mata os pobres. 

CC: Algum dia a sociedade brasileira terá consciência das profundas desigualdades e suas consequências?
JS: Acho difícil. Com a mídia que temos, desregulada e a serviço do dinheiro, e a falta de um padrão de comparação para quem recebe as notícias, fica muito complicado. É ridícula a nossa televisão. Aqui você tem programas de debates com convidados que falam a mesma coisa. Isso não existe em nenhum país minimamente civilizado. É difícil criar um processo de aprendizado.

CC: O senhor acredita em eleições em 2018?
JS: Com a nossa elite, a nossa mídia, a nossa Justiça, tudo é possível. O principal fator de coesão da elite é o ódio aos pobres. Os políticos, por sua vez, viraram símbolo da rapinagem. Eles roubam mesmo, ao menos em grande parte, mas, em analogia com o narcotráfico, não passam de “aviõezinhos”. Os donos da boca de fumo são o sistema financeiro e os oligopólios. São estes que assaltam o País em grandes proporções. E somos cegos em relação a esse aspecto. A privatização do Estado é montada por esses grandes grupos. Não conseguimos perceber a atuação do chamado mercado. Fomos imbecilizados por essa mídia, que é paga pelos agentes desse mercado. Somos induzidos a acreditar que o poder público só se contrapõe aos indivíduos e não a esses interesses corporativos organizados. O poder real consegue ficar invisível no País.

CC: O quanto as manifestações de junho de 2013, iniciadas com os protestos contra o reajuste das tarifas de ônibus em São Paulo, criaram o ambiente para a atual crise política?
JS: Desde o início aquelas manifestações me pareceram suspeitas. Quem estava nas ruas não era o povo, era gente que sistematicamente votava contra o projeto do PT, contra a inclusão social. Comandada pela Rede Globo, a mídia logrou construir uma espécie de soberania virtual. Não existe alternativa à soberania popular. Só ela serve como base de qualquer poder legítimo. Essa mídia venal, que nunca foi emancipadora, montou um teatro, uma farsa de proporções gigantescas, em torno dessa soberania virtual.

Imagem: Debret, Um resumo das relações sociais no Brasil

CC: Mas aquelas manifestações foram iniciadas por um grupo supostamente ligado a ideias progressistas...
JS: Só no início. A mídia, especialmente a Rede Globo, se sentiu ameaçada no começo daqueles protestos. E qual foi a reação? Os meios de comunicação chamaram o seu povo para as ruas. Assistimos ao retorno da família, propriedade e tradição. Os mesmos “valores” que justificaram as passeatas a favor do golpe nos anos 60, empunhados pelos mesmos grupos que antes hostilizavam Getúlio Vargas. Esse pacto antipopular sempre buscou tornar suspeito qualquer representante das classes populares que pudesse ser levado pelo voto ao comando do Estado. Não por acaso, todos os líderes populares que chegaram ao poder foram destituídos por meio de golpes. 
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“A classe média é sadomasoquista”, afirma o sociólogo Jessé Souza - entrevista de José Carlos Fernandes [11/03/2016]  [21h45] na GAZETA DO POVO - Curitiba - PR

Os últimos seis meses foram de tormentas para o sociólogo potiguar Jessé Souza, 55 anos. Sua obra – até então festejada nos redutos acadêmicos – tem saído das estantes direto para as mãos daqueles que procuram uma explicação para o caos econômico e político em que se meteu o país. O que diz nem sempre agrada. Algumas polêmicas rendem réplicas e tréplicas nas páginas dos jornais, acrescidas de golpes baixos nas redes sociais e menções nas apaixonadas rinhas políticas da era Lava Jato. “Até agora, só me xingaram. Estou à espera de um debate de verdade”, provoca o autor de A tolice da inteligência brasileira, A ralé brasileira e de Os batalhadores brasileiros.

Entre suas teses que mexem com o juízo dos detratores está a de que o maior problema do Brasil não é a corrupção – como proclamam multidões em fúria, alguns decibéis acima do normal –, mas a desigualdade. Séculos de convivência com diferenças oceânicas entre ricos e pobres teriam naturalizado a violação de direitos mais básicos e o sistema de privilégios para o 1% de endinheirados. Nada de novo, não fosse o desdobramento de sua afirmação.

Para Souza, paralelo às redes de indignação o que pulsa é o desejo de desmanchar políticas sociais nascidas de diminuir as distâncias entre os brasileiros. Não vem de hoje. Foi assim com Vargas, com Jango e agora com Dilma. As classes médias, afirma, se rendem ao discurso moralizador sem perceber que estão sendo usadas pelos donos do capital. Julgando se diferenciar dos corruptos, nada mais estariam fazendo do que o jogo dos grupos que reivindicam um Estado que funcione a seu favor. Ao bater as panelas da moralidade, entende, os médios alimentam a ilusão de que estão mais próximos das elites, com as quais estabelecem um misto de admiração e ressentimento. “É uma relação sadomasoquista”, resume.

Jessé Souza – atual presidente do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) – esteve em Curitiba há duas semanas, para uma aula magna do curso de Direito da UFPR. As 200 cadeiras do auditório do Prédio Histórico foram insuficientes para as fileiras de interessados em ouvi-lo. A maioria teve de se contentar com telões. É tudo novo para o pesquisador, mas não inesperado. Ao longo de 20 anos, ele se entregou a uma tarefa quase insana– desmontar o olhar sobre o Brasil e os brasileiros cunhado por papas como Gilberto Freyre, Sérgio Buarque e Raymundo Faoro, autores que a seu ver se prestam a reforçar, sem bases científicas, o sentimento de inferioridade nacional. Joga água fervendo em máximas como a do brasileiro cordial, dado a dar jeitinho em tudo e a levantar vantagem. “Essas ideias são construções que só servem para desencadear nosso complexo de vira-lata”.

Confira trechos de entrevista dada à Gazeta do Povo:

Como o senhor lida com as oposições raivosas a suas teses?
- Foi difícil para mim no campo universitário, mas a rejeição, de algum modo, me deu força para continuar. Ainda não recebi nenhuma crítica argumentativa. Não houve debate. Ganhei foi xingamentos. Aguardo algo que seja de alto nível, o que o Brasil precisa muito nessa hora. Estamos diante de um ponto importante – saber como a questão da corrupção foi construída. Houve uma naturalização de que esse é o grande impasse do Brasil. Nosso complexo de vira-lata foi despertado.

Onde quer chegar?
- Quero mostrar que é uma mentira o que os intelectuais e as ciências sociais dizem sobre o Brasil. Com raras exceções, o que afirmam é que o grande problema é a corrupção. Isso é uma manipulação. Nada prova que nosso país seja mais corrupto que os EUA. Minha tese: os intelectuais montaram uma tropa de choque para justificar a existência de menos de 1% de endinheirados, que mandam e desmandam na Nação. A corrupção existe em todo lugar, não é uma jabuticaba. O interesse em dramatizar o tema é um mecanismo dos mais ricos para imbecilizar a sociedade. Só as elites ganham nessa luta de classes invisível.

A Lava Jato seria a dramatização da corrupção...
- A dramatização mais perfeita. Chamo de Nova República do Galeão, numa alusão à república montada no aeroporto [por oficiais da FAB, em 1954], acima da lei, acima da Constituição, criada em nome da limpeza do país, de conter o “Mar de Lama”...

No Brasil, existe um esquema do golpe, montado. Os componentes são os mesmos. A diferença do golpe que matou Getúlio Vargas e o que desencadeou o Golpe de 64 é que agora deixa de ser militar e se torna civil e jurídico. A função é a mesma – retirar o poder de qualquer partido que tenha alguma preocupação popular. Era o caso do Getúlio, do Jango, da Dilma.

O termo “golpe de direita” envelheceu?
- Não usaria nesse caso categorias como direita ou esquerda. Diria que é um país em que meia dúzia de endinheirados mandam, compram parte do Congresso, põem a imprensa no bolso, fazem o que querem, como os grandes senhores de escravos. São espertos. Montaram uma tradição intelectual para legitimar esse modelo.

O tema da corrupção só entra em pauta no momento em que a elite econômica perde o controle do Estado. A classe média é a que mais se torna imbecil. É explorada por esse grupo e depois vai defendê-lo. Que diabos ganha? A classe média faz papel de tola. É explorada por juros, impostos, sai às ruas. Tem a ilusão de estar lutando pela moralidade, de ser mais decente.

É uma relação sadomasoquista, uma “gratificação substitutiva”, como diria Freud. Infantil, esse grupo imita os ricos, pelos quais tem ressentimento e admiração. É uma classe que se julga da Noruega. Preocupa-se com a morte das baleias, mas não se sensibiliza com a miséria a sua volta.

Se não é a corrupção, qual o nosso problema?
- Nosso problema tem a ver com a classe de excluídos, que estudei em A ralé brasileira: quem é e como vive (2009). Uso o termo “ralé” para provocar e mostrar que a classe média que se diz guardiã da moralidade explora os excluídos. Usa-os para cuidar dos filhos, para comer pizza quentinha, matando dois motoboys por dia. Quero pôr a classe média no espelho: “Olhe o que você constrói, quem você abandona, bem você, que tira onda de campeão da moralidade”. A classe média vampiriza esses trabalhadores. É farisaica. E a imprensa é o braço principal dessa elite que nos dá sua dose de veneno midiático a cada dia. Dizemos que o problema é a corrupção, mas ao mesmo tempo mantemos uma das sociedades mais perversas e desiguais do planeta.

O senhor foi formado nas ideias de Gilberto Freyre, Sérgio Buarque de Hollanda, Raymundo Faoro. Por que se estranhou com seus mestres?

- Estudei esses autores com obsessão, dois-três anos cada um, quando estava na Alemanha, na década de 1990. Em especial o Gilberto Freyre. É o mais inteligente e o que mais me intrigou, por ser uma espécie de criador do Brasil moderno. Queria ter uma visão pessoal sobre o mundo e a sociedade brasileira. Até que me dei conta de que estava entrando na esparrela que o Freyre havia criado. Fiquei quase um mês paralisado. Meu projeto acabou ali. Só me restava fazer a crítica desse pessoal. Como os demais brasileiros, eu tinha sido educado para me ver como um povo vira-lata, emocional, que age pelo coração. Estava diante da chance de renovar e reinterpretar o Brasil.

Não somos tão filhos de Portugal quanto imaginamos...
- Dizer isso faz parte do engodo. Virou senso comum. Algumas afirmações são ridículas, não existe outra palavra. Raymundo Faoro diz que a corrupção vem desde Portugal, mas não havia corrupção lá. Como o rei poderia roubar o que era dele? A noção de soberania popular, que nos permite falar em corrupção, começa dois séculos depois. A questão é que se acredita nisso. O que molda as pessoas são as instituições e a instituição principal do Brasil, a partir 1532, é a Escravidão – que não existia em Portugal. Os modelos de família, de Justiça, de política, de economia são montados pela Escravidão, aqui de maneira distinta de Portugal. Lá a Igreja era mais importante do que os senhores e limitava o poder senhorial. Já entre nós os senhores podiam tudo, o que se mantém até hoje, de alguma maneira.

Permita lembrar algo curioso – o que os operadores de telemarketing, uma das categorias que aparecem em suas pesquisas – têm a dizer sobre o Brasil?
- Tratei desse grupo num livro específico [Os batalhadores brasileiros, 2012], ao estudar os que foram alçados de modo errôneo à chamada “nova classe média”. Queria compreendê-los. Percebi que estávamos diante de um fenômeno – o surgimento de uma nova classe trabalhadora, precária, a céu aberto, sem privilégio. O telemarketing tem a ver com as mudanças tecnológicas, com o desaparecimento de postos de emprego e com a exploração total do trabalhador. Os atendentes atuam em condições exaustivas. Retira-se tudo deles.

Como definiria o que chama de “nova classe trabalhadora”?
- É pobre. A humilhação para essa gente é tão presente quanto a falta de dinheiro. É humilhada nos serviços públicos, mas também por nós. Mudamos de lado na rua quando os vemos. É um ser humano sem dignidade, esquecido, sem chances digna de enfrentar competição. O novo trabalhador foi montado para estar nessa situação. De positivo, a admirável resiliência. Com o pouco que lhe foi dado, dinamizou a economia, deu impulso ao desenvolvimento, como não acontecia havia 60 anos. Fico muito impressionado com a resposta que a população deu diante do pequeno estímulo que recebeu.

Nesse cenário, qual o papel das religiões evangélicas?
- Importante. Esse povo não é só pobre, humilhado, visto de cima para baixo, sem chances... Tem a religião, que se confunde com a política e com a economia. As igrejas deram a esses pobres a autoestima. Fez deles irmãos de Jesus, filhos de Deus. O projeto lulista deu uma oportunidade a essas pessoas, mas a pregação evangélica também. Não se move a sociedade só por transferência de renda. A autoestima dada pelas religiões ajuda a reagir, a acreditar probabilidade de mudar no futuro. Nosso debate é limitado, muito centrado na renda e pouco na dimensão simbólica, justo a que determina como a gente reage.

Diz-se que na última década o desenvolvimento se deu à custa do consumo de carros pelos mais pobres, por exemplo, mas não da cultura. Concorda?
- Diria duas coisas. Qual é o problema de os pobres começarem a consumir? Para pobres ou não, o consumo é parte importante da cidadania. Tem a ver com direitos. O acesso a bens de consumo torna a vida boa, agradável. Em segundo lugar, estudos do Ipea mostram que nos últimos dez anos modificou a maneira como as pessoas imaginam a vida. Vivemos uma pequena revolução, porque também aumentou o capital cultural, antes concentrado na classe média. Com mais consumo em geral, as famílias pobres expandiram seus horizontes. Investem mais em educação, passam a perceber o futuro, a pensar em como sair de onde estão.
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GOLPE - por Jessé Souza: elite financeira derruba todo governo com projeto de desenvolvimento

Em evento de formação no Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, sociólogo afirmou que Dilma caiu porque tentou reduzir a taxa de juros. Jessé destacou entrada dos trabalhadores na política, liderados pelos metalúrgicos, como "inflexão histórica"

Redação RBA publicado 06/07/2017 12h57, última modificação 06/07/2017 13h04

São Paulo – Para o sociólogo Jessé Souza, diretor da Escola de Contas Públicas do Tribunal de Contas do Município de São Paulo (TCM-SP), a elite brasileira, ligada ao mercado financeiro e ao rentismo, nunca aceitou um projeto de desenvolvimento a longo prazo, e todos os governos que tentaram colocá-lo em prática sofreram um golpe.

"Foi desse modo que o capitalismo financeiro pegou todas as frações do capital para si. Todos eles se identificam com a questão dos juros. Dilma caiu porque tentou mexer na questão dos juros", afirmou o sociólogo, em evento de formação no Sindicato dos Metalúrgicos do ABC. 

Jessé, autor dos livros A tolice da inteligência brasileira (2015) e A radiografia do golpe (2016), alertou que, no Brasil, essa mesma elite reproduz a ideia de que a corrupção só existe na política e que o estado é o único inimigo, conseguindo, assim, manipular e esconder a corrupção das grandes empresas privadas, principalmente do setor financeiro, que agem livremente sem visibilidade alguma. "Não existe essa elite poderosa. É dito nos livros para que a gente acredite nisso, e a elite real, que sempre esteve no mercado, se torne invisível na sua ação."

Ele também destacou a importância da ação política dos trabalhadores e sua capacidade como agente transformador. "O Brasil é um país extremamente injusto, e tudo, mas a grande inflexão que houve na história brasileira inteira foi a entrada das classes trabalhadoras na política, como se deu nos anos 80, e que foram comandados em grande medida pelos metalúrgicos", afirmou Jessé Souza em entrevista à repórter Michelle Gomes, para o Seu Jornal, da TVT. 

A secretária de Formação do sindicato, Michelle Marques, destacou a importância de se discutir a política entre os trabalhadores neste período de crise. "É formar dirigentes para que eles consigam colocar os trabalhadores no meio de tudo isso que está acontecendo, e que o trabalhador tenha um olhar de que somos uma classe de explorados", afirmou.
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Jessé Souza - Esquerda, Direita e os mitos fundadores do Brasil - Publicado em 18/jul/2016 - Evento promovido pelo Bacharelado em Políticas Públicas da UFABC (BPP-UFABC), com o apoio dos cursos de Ciências e Humanidades (BCH), Planejamento Territorial (BPT), Ciências Econômicas (BCE), Relações Internacionais (BRI) e do Centro Acadêmico de Políticas Públicas (CAPOL).

PALESTRA COMPLETA: Aula Magna - Políticas Públicas e Desigualdade em Tempos de Crise - realizada na UFABC - Publicado em 12 de abr de 2016 - Palestrante: Prof. Dr. Jessé Souza - Docente Titular UFF e Presidente do IPEA. - Data: 07/04/2016 - Local: A001 - Bloco Beta - Campus São Bernardo do Campo - acesse o link aqui (pois é outro vídeo no Yotube)


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Jessé: a radiografia do Golpe - Conversa Afiada com Paulo Henrique Amorim - Publicado em 27/ago/2016

O Conversa Afiada exibe entrevista do sociólogo Jessé Souza a propósito de seu novo livro "A radiografia do Golpe", editado pela LeYa.

O amigo navegante vai entender por que a epígrafe é do Cazuza: "Transformar o país num puteiro, pois assim se ganha mais dinheiro".

Jessé trata também:
    da "inflação do diploma" e as manifestações de 2013;
   como os golpistas se articularam no jornal nacional, quando as manifestaçoes se "federalizaram" e o jn deu aos golpistas a capa da moralidade: são os que combatem a corrupção (do PT);
    por que o combate à corrupção é pornograficamente seletivo;
    o elogio do Procurador Eugênio Aragão;
    e o que é essa "classe médio de Oslo", marineira...

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JESSÉ SOUZA - A Radiografia do Golpe (entrevista ao Luis Nassif) - TRECHO DO PROGRAMA "Na Sala de Visitas com Luis Nassif (Edição 9) - publicado em 13/set/2016: 

Acesse aqui o link de vários vídeos do Profº Jessé no Youtube

Acesse aqui o link do Google com textos e entrevistas

Leia também: 

A quem serve a classe média indignada? por Jessé Souza - 14/abr/2016 - Cientista político e presidente do Ipea rejeita, em novo livro, interpretações do Brasil como a de Sérgio Buarque de Holanda. Negando a ideia de que jeitinho e corrupção sejam exclusividades nacionais herdadas da colonização, aponta o “racismo de classe” e o abandono dos excluídos como raízes dos problemas do país.
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